Cotchini closti!
Vovó Eleni sentou-se na cadeira
confortável,chamou Tomás e Pedro com a cantilena que ouvia na infância e dois pares de olhos infantis
arregalados,repetiram com ela”cotchini closti demeni,stin anemi tilimeni,dostu
clotso na girici,paramiti narhinice”
Nenhum deles sabia mais do que o significa de “paramiti”(historinhas),nem
era fácil para a avó, traduzir algo que em grego fazia som de frases rimadas e
sincopadas e que a rigor era uma
metáfora singela: “linha vermelha ,emaranhada ao vento,damos
um tranco para desembaraçar, para que também a história possa se desenrolar”. Para eles
bastava o som,o sentido e a certeza de que a avó ia contar uma historinha
daquelas de antigamente:
“Tchino ton geron tchino ta zamanha”... ena vassileu...”
Sim naquele tempo e naquele passado havia um rei... e daqui ela
continuava em português,porque seus netos paraibanos não acompanhariam mais
nada dito em grego.
A bem da verdade, nem a avó saberia muito mais.Seu grego,ouvido em toda a
infância,falado por avós e tios,era bom o suficiente para entender quase
tudo,mas falava apenas para ser entendida e provocar algum riso.Mas ela gostava
muito e nesse tempo de “pandemônio” voltar às próprias raízes fazia mais do que
bem.Era vital!
Com as plantas já aprendera que no inverno a seiva volta para as raízes e
lá se protege.Voltava para a parte grega de suas raízes e continuava sendo a
eterna avó.
Naquele
tempo,naquele passado,havia um rei poderoso.Sua filha era uma princesinha de onze anos,como você Tomás e como eu se
chamava Eleni.Era muito inquieta e
curiosa.Seu pai,o rei Mihail era amado e temido ao mesmo tempo.Seu
temperamento forte e instável intimidava um pouco aos filhos e a
esposa.Contudo,comunicava a todos eles muita segurança e certeza de que
nada,nem ninguém poderia fazer mal a quem quer que fosse daquela casa real.
A mãe,criatura bondosa,eclipsada pela
força do pai,cuidava para que nenhuma regra dentro do palácio fosse quebrada e
assim agradar seu marido e senhor,a quem amava e temia a um só tempo.
A primogênita, princesinha Eleni,sem
ser propriamente bela, exibia a graça e
a vivacidade de uma gazela dos campos da
região e sua extrema agilidade
mental, fazia dela a principal inquisidora dentro do palácio. Passava a maior
parte do tempo perguntando e perguntando sobre cada astro no céu, cada planta
que encontrava desconhecida, sobre o tempo e o espaço,sobre as dimensões desses
conceitos e de cada fenômeno que a natureza apresentava diante de seus sentidos
.O alvo predileto de suas investidas intelectuais era o preceptor Ulysses ainda
jovem mas já muito sábio ,que lhe
dizia”Patria cara,carior libertas,veritas caríssima”.
Com
ele,aprendia os nomes das estrelas, o
movimento da Lua, descobria segredos da vida no mar , plantas medicinais,
conhecia o significado de palavras exóticas de idiomas diversos.
Com a avó aprendia , em lindas
histórias dos tempos remotos as origens de sua família e com o mestre,Ulysses,
o conteúdo imemorial do pensamento humano.
A caminho da casinha onde viviam seus
avós,Eleni sempre desfrutava com imenso prazer, do ar impregnado dos odores de
folhas e troncos umedecidos e que rescendiam a resinas e lhe proporcionavam
grande bem-estar. Sentia-se parte integrante da natureza, quase como uma espécie
vegetal e sempre que caminhava pela trilha no meio da floresta, olhava
cuidadosa e atentamente ,dialogando até mesmo com as gotas de orvalho.Todas lhe
diziam coisas...ela ouvia e aprendia.
Certo dia,
percebeu atrás de um tronco de frondoso eucalipto da Índia, cujo odor lhe agradava de modo especial, um movimento
estranho e rápido, como de alguém que fugisse da possibilidade de ser
visto.Assustou-se e experimentou a sensação de urgência de sair dali, mas sua
grande curiosidade a fez respirar fundo,recuar, acalmar-se e e investigar.Esperta e cautelosa, começou a
choramingar de mentirinha, ,dizendo-se perdida na floresta, imaginando que o
que quer que fosse que ali estivesse, renunciaria a qualquer intenção de
malignidade , se esta existisse ,diante de uma menininha indefesa...Sua
suposição estava certíssima. Em poucos minutos, surgiu por detrás do tronco um
estranha figura, pequena , de um ser que parecia uma anão,vestido como o bobo
da corte, mas com fisionomia bem mais carregada de seriedade e lucidez...podia
ser um duende...era um duende! Seu olhar a impressionou de imediato, vigoroso,
penetrante e direto.Confiáveis ! Eleni relaxou e abandonou a postura estudada
de menininha perdida e assustada. Percebeu que aquele ser sabia mais, muito
mais do que todos os que sabiam muito.
_Quem é você, perguntou o duende?
__Eu sou Eleni, a filha do rei Mihail.
__Não lhe perguntei o nome e nem filha
de quem você é esperta garotinha.Perguntei-lhe quem você é?
__Bem, então...bem, então eu sou uma
menina de12 anos.
__Outra vez! Não lhe perguntei sobre o
que é evidente como ser uma menina e nem sobre sua idade... repito que estou
querendo saber apenas quem é você e nenhuma outra circunstância especial sobre
sua pessoa.
_Então, nem adianta dizer-lhe que sou
neta de quem sou, filha de quem sou, meu nome e posição neste reino...nada
disso lhe satisfará ?
_Satisfaz a você, perguntou o duende?
_Bem, tem bastado...até hoje, penso que
sou quem penso que sou...não por imaginar, mas por ver comprovados todos os
dados que lhe forneci sobre mim...Essa sou eu...
_Há...HÁ...HÁ... o duende riu-se
gostosamente da resposta da menina...que graça! Imagine se cada roupa que uma
pessoa veste for usada para
identificá-la...será engraçado...Você é tudo isso também,mas poderia ter outro
nome e ser você...ou não?
_Então, gaguejou a menina, quem sou eu?
_Parabéns festejou o duende que em seguida disse seu
nome: Chamam-me Nuno e eu simpatizo com esse sinal que me ajuda a ser encontrado pelas
pessoas...mas meu encontro comigo mesmo faz outro caminho.
_Qual é esse caminho , perguntou a
perguntadora...
_Ah! Muito bem...você está progredindo.
Esse caminho começa com a pergunta que você acabou de fazer: Quem sou eu?
_E a resposta? quis saber a menina
_A resposta virá sempre que você fizer perguntas bem feitas. Sobre você ,
pergunte tudo o que puder a si mesma e a
quantas pessoas no mundo puder e terá a resposta, e quando ela vier, você
saberá.Lembre-se do que lhe disse o seu preceptor:”Pátria cara, carior
libertas, veritas caríssima” ....pergunte...pergunte...pergunte....e olhe
sempre no fundo dos olhos , ouça muitas vezes a mesma coisa, fale pouco e bem
,não perca o contato com o cheiro de terra molhada e nem tire os pés do
chão...Use a pele ...Você saberá ...Deus a abençõe e proteja de tudo o que
ainda não sabe, pois na ignorância estão os perigos que mais a ameaçarão...você
somente verá o que sabe e conhece e enquanto isso...até mesmo sua sombra é sua
inimiga....Lembre-se de tudo o que lhe disse
e acredite.
Dizendo isso, o duende desapareceu tão
rápido como havia aparecido e em seu lugar, deixou uma marca , que seguramente
ninguém mais veria.Eleni veria sempre...ela vira o duende e vira a marca se
formar em seu lugar.Percebeu a
veracidade do que ele dissera:você só pode ver o que conhece.
O tempo
passou,Eleni cresceu e muita coisa ruim aconteceu.Foram anos de guerras,de
ganância desmedida,de falta de amor e de solidariedade.O reino de seu pai
desapareceu em meio a invasões e ela sobreviveu e passou a viver no Brasil, sem
a pompa do antigo mundo conhecido.Via o que nunca vira:carências e
desigualdades que a perturbavam mais e mais.Qual é a fonte disso ?Para que
vivemos?Onde está o tesouro que sinto que deve existir,para além daqueles
tesouros acumulados por meu pai,que já não existem?
_Em meio a
tantas dúvidas ,certo dia ,sentiu novamente o aroma do eucalipto da India,
percebeu um movimento entre as folhas e lá estava ele:Nuno,o duende
voltara.Lembrou-se de seu primeiro encontro,quando ainda achava que sabia tudo
sobre si e sobre o mundo conhecido.Sentiu alegria mas percebeu que ele não era
mais tão brincalhão.Ela não estranhou o encontro,pois há algum tempo vinha
desejando muito isso.
Ele a olhou
sério sem nada dizer.Depois fez algumas piruetas e perguntou:
_Como está
princesinha,filha do rei Mihail?
Sem responder a
jovem disparou:
_O egoísmo...o
que é?Onde se esconde?
_Essa não é a
pergunta adequada.Se fosse possível saber onde se esconde, lá o procuraríamos.
_Sei,disse ela,
que o egoísmo se metamorfoseia.é um camaleão sagaz e se faz presente em quase
todos os projetos de vida.Frustra a
busca de felicidade e de realização da alma.Quero saber onde devo
procurar para identificar e eliminar ou
ao menos para caminhar sem me sujeitar aos seus ditames.Já aprendi que se
fantasia até de caridade por vezes.
_Humm...sei que
tudo o que mais quer é ser parte do grande evento cósmico,não é ?
_A
propósito,você que gosta de raízes,já experimentou voltar-se para suas raízes
indígenas?
“Você sabe
delas,perguntou a princesa...pensei que soubesse só do lado grego de minha
ascendência!”
O duende deu uma
gargalhada...”sei tudo!Sei que um antepassado veio para o Brasil,casou-se com
uma bugrinha matogrossense que teve três filhos e morreu muito jovem.Seu pai,o
rei Mihail era o segundogênito.Essa avó está viva no seu sangue e vai te dar as
respostas.Se quiser saber o que ela escreveria para você se pudesse,leia a”
Carta do chefe Seattle”.Um presidente de uma nação poderosa quis comprar as
terras da tribo da qual ele era o cacique e verá respostas sobre o que é a Vida
e quem você de verdade.
Eleni correu
para prateleiras nunca antes visitadas,encontrou a carta.Leu e encontrou todas
as respostas.Pedro,Tomás.um dia vocês a lerão também...por agora vou apenas
repetir a vocês as partes das quais eu me lembro porque também fiz questão do
conhecê-la.
Vejam por
exemplo estas:
“Se não
possuis o frescor do ar ou o brilho da água,como podeis querer comprá-los?”
“Somos
parte da terra e ela é parte de nós”
“O ar é
precioso para o homem vermelho,pois dele todos se alimentam.”
“De uma
coisa temos certeza, a terra não pertence ao homem branco,o homem branco
pertence à terra”
“O homem
não tece a teia da vida;antes,ele é um de seus fios..o que quer que faça a essa
teia fará a si próprio”
“Talvez,apesar
de tudo sejamos todos irmãos.Nós o veremos.De uma coisa,sabemos-e que talvez o
homem branco venha a descobrir um dia-nosso Deus é o mesmo Deus.Podeis pensar
hoje que somente vós O possuis,como desejais possuir a terra,mas não podeis.Ele
é o deus do homem e Sua compaixão é igual tanto para o homem branco quanto para
o homem vermelho.Esta terra é querida Dele e ofender a terra é insultar o seu
Criador.Os brancos também passarão;talvez mais cedo-do que todas as outras
tribos.Contaminai a vossa cama e vos sufocareis numa noite,no meio de vossos
próprios excrementos.”
“Onde
está a águia?desapareceu.O fim do viver e o início do sobreviver!”
Esse encontro com as raízes indígenas foi definitivo para Eleni.Quando
quis agradecer,viu que o duende se fora.
Ao compreender tudo,a princesa se viu com muito mais idade..percebeu que
envelhecera,que se tornara sábia e serenamente feliz,que estava em completa
harmonia com a natureza e que não havia princesa,nem” eu” nenhum.Sempre fomos
“nós”Não existe eu...só existe
nós.
Entendendo que agora
a vovó ia dizer”:acabou-se a história,morreu vitória,quem quiser que conte
outra”...os dois a abraçaram e ela teve certeza de que deveria começar uma
segunda “paramiti”
Cotchini closti demeni...
Cotchini closti!
(Helena Zarvos-Lins(S.P)
Vovó Eleni sentou-se na cadeira
confortável,chamou Tomás e Pedro com a cantilena que ouvia na infância e dois pares de olhos infantis
arregalados,repetiram com ela”cotchini closti demeni,stin anemi tilimeni,dostu
clotso na girici,paramiti narhinice”
Nenhum deles sabia mais do que o significa de “paramiti”(historinhas),nem
era fácil para a avó, traduzir algo que em grego fazia som de frases rimadas e
sincopadas e que a rigor era uma
metáfora singela: “linha vermelha ,emaranhada ao vento,damos
um tranco para desembaraçar, para que também a história possa se desenrolar”. Para eles
bastava o som,o sentido e a certeza de que a avó ia contar uma historinha
daquelas de antigamente:
“Tchino ton geron tchino ta zamanha”... ena vassileu...”
Sim naquele tempo e naquele passado havia um rei... e daqui ela
continuava em português,porque seus netos paraibanos não acompanhariam mais
nada dito em grego.
A bem da verdade, nem a avó saberia muito mais.Seu grego,ouvido em toda a
infância,falado por avós e tios,era bom o suficiente para entender quase
tudo,mas falava apenas para ser entendida e provocar algum riso.Mas ela gostava
muito e nesse tempo de “pandemônio” voltar às próprias raízes fazia mais do que
bem.Era vital!
Com as plantas já aprendera que no inverno a seiva volta para as raízes e
lá se protege.Voltava para a parte grega de suas raízes e continuava sendo a
eterna avó.
Naquele
tempo,naquele passado,havia um rei poderoso.Sua filha era uma princesinha de onze anos,como você Tomás e como eu se
chamava Eleni.Era muito inquieta e
curiosa.Seu pai,o rei Mihail era amado e temido ao mesmo tempo.Seu
temperamento forte e instável intimidava um pouco aos filhos e a
esposa.Contudo,comunicava a todos eles muita segurança e certeza de que
nada,nem ninguém poderia fazer mal a quem quer que fosse daquela casa real.
A mãe,criatura bondosa,eclipsada pela
força do pai,cuidava para que nenhuma regra dentro do palácio fosse quebrada e
assim agradar seu marido e senhor,a quem amava e temia a um só tempo.
A primogênita, princesinha Eleni,sem
ser propriamente bela, exibia a graça e
a vivacidade de uma gazela dos campos da
região e sua extrema agilidade
mental, fazia dela a principal inquisidora dentro do palácio. Passava a maior
parte do tempo perguntando e perguntando sobre cada astro no céu, cada planta
que encontrava desconhecida, sobre o tempo e o espaço,sobre as dimensões desses
conceitos e de cada fenômeno que a natureza apresentava diante de seus sentidos
.O alvo predileto de suas investidas intelectuais era o preceptor Ulysses ainda
jovem mas já muito sábio ,que lhe
dizia”Patria cara,carior libertas,veritas caríssima”.
Com
ele,aprendia os nomes das estrelas, o
movimento da Lua, descobria segredos da vida no mar , plantas medicinais,
conhecia o significado de palavras exóticas de idiomas diversos.
Com a avó aprendia , em lindas
histórias dos tempos remotos as origens de sua família e com o mestre,Ulysses,
o conteúdo imemorial do pensamento humano.
A caminho da casinha onde viviam seus
avós,Eleni sempre desfrutava com imenso prazer, do ar impregnado dos odores de
folhas e troncos umedecidos e que rescendiam a resinas e lhe proporcionavam
grande bem-estar. Sentia-se parte integrante da natureza, quase como uma
espécie vegetal e sempre que caminhava pela trilha no meio da floresta, olhava
cuidadosa e atentamente ,dialogando até mesmo com as gotas de orvalho.Todas lhe
diziam coisas...ela ouvia e aprendia.
Certo dia,
percebeu atrás de um tronco de frondoso eucalipto da Índia, cujo odor lhe agradava de modo especial, um movimento
estranho e rápido, como de alguém que fugisse da possibilidade de ser
visto.Assustou-se e experimentou a sensação de urgência de sair dali, mas sua
grande curiosidade a fez respirar fundo,recuar, acalmar-se e e investigar.Esperta e cautelosa, começou a
choramingar de mentirinha, ,dizendo-se perdida na floresta, imaginando que o
que quer que fosse que ali estivesse, renunciaria a qualquer intenção de
malignidade , se esta existisse ,diante de uma menininha indefesa...Sua
suposição estava certíssima. Em poucos minutos, surgiu por detrás do tronco um
estranha figura, pequena , de um ser que parecia uma anão,vestido como o bobo
da corte, mas com fisionomia bem mais carregada de seriedade e lucidez...podia
ser um duende...era um duende! Seu olhar a impressionou de imediato, vigoroso,
penetrante e direto.Confiáveis ! Eleni relaxou e abandonou a postura estudada
de menininha perdida e assustada. Percebeu que aquele ser sabia mais, muito
mais do que todos os que sabiam muito.
_Quem é você, perguntou o duende?
__Eu sou Eleni, a filha do rei Mihail.
__Não lhe perguntei o nome e nem filha
de quem você é esperta garotinha.Perguntei-lhe quem você é?
__Bem, então...bem, então eu sou uma
menina de12 anos.
__Outra vez! Não lhe perguntei sobre o
que é evidente como ser uma menina e nem sobre sua idade... repito que estou
querendo saber apenas quem é você e nenhuma outra circunstância especial sobre
sua pessoa.
_Então, nem adianta dizer-lhe que sou
neta de quem sou, filha de quem sou, meu nome e posição neste reino...nada disso
lhe satisfará ?
_Satisfaz a você, perguntou o duende?
_Bem, tem bastado...até hoje, penso que
sou quem penso que sou...não por imaginar, mas por ver comprovados todos os
dados que lhe forneci sobre mim...Essa sou eu...
_Há...HÁ...HÁ... o duende riu-se
gostosamente da resposta da menina...que graça! Imagine se cada roupa que uma
pessoa veste for usada para
identificá-la...será engraçado...Você é tudo isso também,mas poderia ter outro
nome e ser você...ou não?
_Então, gaguejou a menina, quem sou eu?
_Parabéns festejou o duende que em seguida disse seu
nome: Chamam-me Nuno e eu simpatizo com esse sinal que me ajuda a ser encontrado pelas
pessoas...mas meu encontro comigo mesmo faz outro caminho.
_Qual é esse caminho , perguntou a
perguntadora...
_Ah! Muito bem...você está progredindo.
Esse caminho começa com a pergunta que você acabou de fazer: Quem sou eu?
_E a resposta? quis saber a menina
_A resposta virá sempre que você fizer perguntas bem feitas. Sobre você ,
pergunte tudo o que puder a si mesma e a
quantas pessoas no mundo puder e terá a resposta, e quando ela vier, você
saberá.Lembre-se do que lhe disse o seu preceptor:”Pátria cara, carior
libertas, veritas caríssima” ....pergunte...pergunte...pergunte....e olhe
sempre no fundo dos olhos , ouça muitas vezes a mesma coisa, fale pouco e bem
,não perca o contato com o cheiro de terra molhada e nem tire os pés do
chão...Use a pele ...Você saberá ...Deus a abençõe e proteja de tudo o que
ainda não sabe, pois na ignorância estão os perigos que mais a ameaçarão...você
somente verá o que sabe e conhece e enquanto isso...até mesmo sua sombra é sua
inimiga....Lembre-se de tudo o que lhe disse
e acredite.
Dizendo isso, o duende desapareceu tão
rápido como havia aparecido e em seu lugar, deixou uma marca , que seguramente
ninguém mais veria.Eleni veria sempre...ela vira o duende e vira a marca se
formar em seu lugar.Percebeu a
veracidade do que ele dissera:você só pode ver o que conhece.
O tempo
passou,Eleni cresceu e muita coisa ruim aconteceu.Foram anos de guerras,de
ganância desmedida,de falta de amor e de solidariedade.O reino de seu pai
desapareceu em meio a invasões e ela sobreviveu e passou a viver no Brasil, sem
a pompa do antigo mundo conhecido.Via o que nunca vira:carências e desigualdades
que a perturbavam mais e mais.Qual é a fonte disso ?Para que vivemos?Onde está
o tesouro que sinto que deve existir,para além daqueles tesouros acumulados por
meu pai,que já não existem?
_Em meio a
tantas dúvidas ,certo dia ,sentiu novamente o aroma do eucalipto da India,
percebeu um movimento entre as folhas e lá estava ele:Nuno,o duende
voltara.Lembrou-se de seu primeiro encontro,quando ainda achava que sabia tudo
sobre si e sobre o mundo conhecido.Sentiu alegria mas percebeu que ele não era
mais tão brincalhão.Ela não estranhou o encontro,pois há algum tempo vinha
desejando muito isso.
Ele a olhou
sério sem nada dizer.Depois fez algumas piruetas e perguntou:
_Como está
princesinha,filha do rei Mihail?
Sem responder a
jovem disparou:
_O egoísmo...o
que é?Onde se esconde?
_Essa não é a
pergunta adequada.Se fosse possível saber onde se esconde, lá o procuraríamos.
_Sei,disse ela,
que o egoísmo se metamorfoseia.é um camaleão sagaz e se faz presente em quase
todos os projetos de vida.Frustra a
busca de felicidade e de realização da alma.Quero saber onde devo
procurar para identificar e eliminar ou
ao menos para caminhar sem me sujeitar aos seus ditames.Já aprendi que se
fantasia até de caridade por vezes.
_Humm...sei que
tudo o que mais quer é ser parte do grande evento cósmico,não é ?
_A
propósito,você que gosta de raízes,já experimentou voltar-se para suas raízes
indígenas?
“Você sabe
delas,perguntou a princesa...pensei que soubesse só do lado grego de minha
ascendência!”
O duende deu uma
gargalhada...”sei tudo!Sei que um antepassado veio para o Brasil,casou-se com
uma bugrinha matogrossense que teve três filhos e morreu muito jovem.Seu pai,o
rei Mihail era o segundogênito.Essa avó está viva no seu sangue e vai te dar as
respostas.Se quiser saber o que ela escreveria para você se pudesse,leia a”
Carta do chefe Seattle”.Um presidente de uma nação poderosa quis comprar as
terras da tribo da qual ele era o cacique e verá respostas sobre o que é a Vida
e quem você de verdade.
Eleni correu
para prateleiras nunca antes visitadas,encontrou a carta.Leu e encontrou todas
as respostas.Pedro,Tomás.um dia vocês a lerão também...por agora vou apenas
repetir a vocês as partes das quais eu me lembro porque também fiz questão do
conhecê-la.
Vejam por
exemplo estas:
“Se não possuis
o frescor do ar ou o brilho da água,como podeis querer comprá-los?”
“Somos
parte da terra e ela é parte de nós”
“O ar é
precioso para o homem vermelho,pois dele todos se alimentam.”
“De uma
coisa temos certeza, a terra não pertence ao homem branco,o homem branco
pertence à terra”
“O homem
não tece a teia da vida;antes,ele é um de seus fios..o que quer que faça a essa
teia fará a si próprio”
“Talvez,apesar
de tudo sejamos todos irmãos.Nós o veremos.De uma coisa,sabemos-e que talvez o
homem branco venha a descobrir um dia-nosso Deus é o mesmo Deus.Podeis pensar
hoje que somente vós O possuis,como desejais possuir a terra,mas não podeis.Ele
é o deus do homem e Sua compaixão é igual tanto para o homem branco quanto para
o homem vermelho.Esta terra é querida Dele e ofender a terra é insultar o seu
Criador.Os brancos também passarão;talvez mais cedo-do que todas as outras
tribos.Contaminai a vossa cama e vos sufocareis numa noite,no meio de vossos
próprios excrementos.”
“Onde
está a águia?desapareceu.O fim do viver e o início do sobreviver!”
Esse encontro com as raízes indígenas foi definitivo para Eleni.Quando
quis agradecer,viu que o duende se fora.
Ao compreender tudo,a princesa se viu com muito mais idade..percebeu que
envelhecera,que se tornara sábia e serenamente feliz,que estava em completa
harmonia com a natureza e que não havia princesa,nem” eu” nenhum.Sempre fomos
“nós”Não existe eu...só existe
nós.
Entendendo que agora
a vovó ia dizer”:acabou-se a história,morreu vitória,quem quiser que conte outra”...os
dois a abraçaram e ela teve certeza de que deveria começar uma segunda
“paramiti”
Cotchini closti demeni...
Cotchini closti!
(Helena Zarvos-Lins(S.P)
Vovó Eleni sentou-se na cadeira
confortável,chamou Tomás e Pedro com a cantilena que ouvia na infância e dois pares de olhos infantis
arregalados,repetiram com ela”cotchini closti demeni,stin anemi tilimeni,dostu
clotso na girici,paramiti narhinice”
Nenhum deles sabia mais do que o significa de “paramiti”(historinhas),nem
era fácil para a avó, traduzir algo que em grego fazia som de frases rimadas e
sincopadas e que a rigor era uma
metáfora singela: “linha vermelha ,emaranhada ao vento,damos um tranco para desembaraçar, para que
também a história possa se desenrolar”.
Para eles bastava o som,o sentido e a certeza de que a avó ia contar uma historinha
daquelas de antigamente:
“Tchino ton geron tchino ta zamanha”... ena vassileu...”
Sim naquele tempo e naquele passado havia um rei... e daqui ela
continuava em português,porque seus netos paraibanos não acompanhariam mais
nada dito em grego.
A bem da verdade, nem a avó saberia muito mais.Seu grego,ouvido em toda a
infância,falado por avós e tios,era bom o suficiente para entender quase tudo,mas
falava apenas para ser entendida e provocar algum riso.Mas ela gostava muito e
nesse tempo de “pandemônio” voltar às próprias raízes fazia mais do que bem.Era
vital!
Com as plantas já aprendera que no inverno a seiva volta para as raízes e
lá se protege.Voltava para a parte grega de suas raízes e continuava sendo a
eterna avó.
Naquele
tempo,naquele passado,havia um rei poderoso.Sua filha era uma princesinha de onze anos,como você Tomás e como eu se
chamava Eleni.Era muito inquieta e
curiosa.Seu pai,o rei Mihail era amado e temido ao mesmo tempo.Seu
temperamento forte e instável intimidava um pouco aos filhos e a esposa.Contudo,comunicava
a todos eles muita segurança e certeza de que nada,nem ninguém poderia fazer
mal a quem quer que fosse daquela casa real.
A mãe,criatura bondosa,eclipsada pela
força do pai,cuidava para que nenhuma regra dentro do palácio fosse quebrada e
assim agradar seu marido e senhor,a quem amava e temia a um só tempo.
A primogênita, princesinha Eleni,sem
ser propriamente bela, exibia a graça e
a vivacidade de uma gazela dos campos da região
e sua extrema agilidade mental, fazia dela a principal inquisidora
dentro do palácio. Passava a maior parte do tempo perguntando e perguntando
sobre cada astro no céu, cada planta que encontrava desconhecida, sobre o tempo
e o espaço,sobre as dimensões desses conceitos e de cada fenômeno que a
natureza apresentava diante de seus sentidos .O alvo predileto de suas
investidas intelectuais era o preceptor Ulysses ainda jovem mas já muito sábio ,que lhe dizia”Patria
cara,carior libertas,veritas caríssima”.
Com
ele,aprendia os nomes das estrelas, o
movimento da Lua, descobria segredos da vida no mar , plantas medicinais,
conhecia o significado de palavras exóticas de idiomas diversos.
Com a avó aprendia , em lindas
histórias dos tempos remotos as origens de sua família e com o mestre,Ulysses,
o conteúdo imemorial do pensamento humano.
A caminho da casinha onde viviam seus
avós,Eleni sempre desfrutava com imenso prazer, do ar impregnado dos odores de
folhas e troncos umedecidos e que rescendiam a resinas e lhe proporcionavam
grande bem-estar. Sentia-se parte integrante da natureza, quase como uma
espécie vegetal e sempre que caminhava pela trilha no meio da floresta, olhava
cuidadosa e atentamente ,dialogando até mesmo com as gotas de orvalho.Todas lhe
diziam coisas...ela ouvia e aprendia.
Certo dia,
percebeu atrás de um tronco de frondoso eucalipto da Índia, cujo odor lhe agradava de modo especial, um movimento
estranho e rápido, como de alguém que fugisse da possibilidade de ser
visto.Assustou-se e experimentou a sensação de urgência de sair dali, mas sua
grande curiosidade a fez respirar fundo,recuar, acalmar-se e e investigar.Esperta e cautelosa, começou a
choramingar de mentirinha, ,dizendo-se perdida na floresta, imaginando que o
que quer que fosse que ali estivesse, renunciaria a qualquer intenção de
malignidade , se esta existisse ,diante de uma menininha indefesa...Sua
suposição estava certíssima. Em poucos minutos, surgiu por detrás do tronco um
estranha figura, pequena , de um ser que parecia uma anão,vestido como o bobo
da corte, mas com fisionomia bem mais carregada de seriedade e lucidez...podia
ser um duende...era um duende! Seu olhar a impressionou de imediato, vigoroso,
penetrante e direto.Confiáveis ! Eleni relaxou e abandonou a postura estudada
de menininha perdida e assustada. Percebeu que aquele ser sabia mais, muito
mais do que todos os que sabiam muito.
_Quem é você, perguntou o duende?
__Eu sou Eleni, a filha do rei Mihail.
__Não lhe perguntei o nome e nem filha
de quem você é esperta garotinha.Perguntei-lhe quem você é?
__Bem, então...bem, então eu sou uma
menina de12 anos.
__Outra vez! Não lhe perguntei sobre o
que é evidente como ser uma menina e nem sobre sua idade... repito que estou
querendo saber apenas quem é você e nenhuma outra circunstância especial sobre
sua pessoa.
_Então, nem adianta dizer-lhe que sou
neta de quem sou, filha de quem sou, meu nome e posição neste reino...nada
disso lhe satisfará ?
_Satisfaz a você, perguntou o duende?
_Bem, tem bastado...até hoje, penso que
sou quem penso que sou...não por imaginar, mas por ver comprovados todos os
dados que lhe forneci sobre mim...Essa sou eu...
_Há...HÁ...HÁ... o duende riu-se
gostosamente da resposta da menina...que graça! Imagine se cada roupa que uma
pessoa veste for usada para
identificá-la...será engraçado...Você é tudo isso também,mas poderia ter outro
nome e ser você...ou não?
_Então, gaguejou a menina, quem sou eu?
_Parabéns festejou o duende que em seguida disse seu
nome: Chamam-me Nuno e eu simpatizo com esse sinal que me ajuda a ser encontrado pelas pessoas...mas
meu encontro comigo mesmo faz outro caminho.
_Qual é esse caminho , perguntou a
perguntadora...
_Ah! Muito bem...você está progredindo.
Esse caminho começa com a pergunta que você acabou de fazer: Quem sou eu?
_E a resposta? quis saber a menina
_A resposta virá sempre que você fizer perguntas bem feitas. Sobre você ,
pergunte tudo o que puder a si mesma e a
quantas pessoas no mundo puder e terá a resposta, e quando ela vier, você
saberá.Lembre-se do que lhe disse o seu preceptor:”Pátria cara, carior
libertas, veritas caríssima” ....pergunte...pergunte...pergunte....e olhe
sempre no fundo dos olhos , ouça muitas vezes a mesma coisa, fale pouco e bem
,não perca o contato com o cheiro de terra molhada e nem tire os pés do
chão...Use a pele ...Você saberá ...Deus a abençõe e proteja de tudo o que
ainda não sabe, pois na ignorância estão os perigos que mais a ameaçarão...você
somente verá o que sabe e conhece e enquanto isso...até mesmo sua sombra é sua
inimiga....Lembre-se de tudo o que lhe disse
e acredite.
Dizendo isso, o duende desapareceu tão
rápido como havia aparecido e em seu lugar, deixou uma marca , que seguramente
ninguém mais veria.Eleni veria sempre...ela vira o duende e vira a marca se
formar em seu lugar.Percebeu a
veracidade do que ele dissera:você só pode ver o que conhece.
O tempo passou,Eleni
cresceu e muita coisa ruim aconteceu.Foram anos de guerras,de ganância
desmedida,de falta de amor e de solidariedade.O reino de seu pai desapareceu em
meio a invasões e ela sobreviveu e passou a viver no Brasil, sem a pompa do
antigo mundo conhecido.Via o que nunca vira:carências e desigualdades que a
perturbavam mais e mais.Qual é a fonte disso ?Para que vivemos?Onde está o
tesouro que sinto que deve existir,para além daqueles tesouros acumulados por
meu pai,que já não existem?
_Em meio a
tantas dúvidas ,certo dia ,sentiu novamente o aroma do eucalipto da India, percebeu
um movimento entre as folhas e lá estava ele:Nuno,o duende voltara.Lembrou-se
de seu primeiro encontro,quando ainda achava que sabia tudo sobre si e sobre o
mundo conhecido.Sentiu alegria mas percebeu que ele não era mais tão
brincalhão.Ela não estranhou o encontro,pois há algum tempo vinha desejando
muito isso.
Ele a olhou
sério sem nada dizer.Depois fez algumas piruetas e perguntou:
_Como está
princesinha,filha do rei Mihail?
Sem responder a
jovem disparou:
_O egoísmo...o
que é?Onde se esconde?
_Essa não é a
pergunta adequada.Se fosse possível saber onde se esconde, lá o procuraríamos.
_Sei,disse ela,
que o egoísmo se metamorfoseia.é um camaleão sagaz e se faz presente em quase
todos os projetos de vida.Frustra a
busca de felicidade e de realização da alma.Quero saber onde devo procurar
para identificar e eliminar ou ao menos
para caminhar sem me sujeitar aos seus ditames.Já aprendi que se fantasia até
de caridade por vezes.
_Humm...sei que
tudo o que mais quer é ser parte do grande evento cósmico,não é ?
_A
propósito,você que gosta de raízes,já experimentou voltar-se para suas raízes
indígenas?
“Você sabe
delas,perguntou a princesa...pensei que soubesse só do lado grego de minha
ascendência!”
O duende deu uma
gargalhada...”sei tudo!Sei que um antepassado veio para o Brasil,casou-se com
uma bugrinha matogrossense que teve três filhos e morreu muito jovem.Seu pai,o
rei Mihail era o segundogênito.Essa avó está viva no seu sangue e vai te dar as
respostas.Se quiser saber o que ela escreveria para você se pudesse,leia a” Carta
do chefe Seattle”.Um presidente de uma nação poderosa quis comprar as terras da
tribo da qual ele era o cacique e verá respostas sobre o que é a Vida e quem
você de verdade.
Eleni correu
para prateleiras nunca antes visitadas,encontrou a carta.Leu e encontrou todas
as respostas.Pedro,Tomás.um dia vocês a lerão também...por agora vou apenas
repetir a vocês as partes das quais eu me lembro porque também fiz questão do
conhecê-la.
Vejam por
exemplo estas:
“Se não
possuis o frescor do ar ou o brilho da água,como podeis querer comprá-los?”
“Somos
parte da terra e ela é parte de nós”
“O ar é
precioso para o homem vermelho,pois dele todos se alimentam.”
“De uma
coisa temos certeza, a terra não pertence ao homem branco,o homem branco
pertence à terra”
“O homem
não tece a teia da vida;antes,ele é um de seus fios..o que quer que faça a essa
teia fará a si próprio”
“Talvez,apesar
de tudo sejamos todos irmãos.Nós o veremos.De uma coisa,sabemos-e que talvez o
homem branco venha a descobrir um dia-nosso Deus é o mesmo Deus.Podeis pensar
hoje que somente vós O possuis,como desejais possuir a terra,mas não podeis.Ele
é o deus do homem e Sua compaixão é igual tanto para o homem branco quanto para
o homem vermelho.Esta terra é querida Dele e ofender a terra é insultar o seu
Criador.Os brancos também passarão;talvez mais cedo-do que todas as outras
tribos.Contaminai a vossa cama e vos sufocareis numa noite,no meio de vossos
próprios excrementos.”
“Onde
está a águia?desapareceu.O fim do viver e o início do sobreviver!”
Esse encontro com as raízes indígenas foi definitivo para Eleni.Quando
quis agradecer,viu que o duende se fora.
Ao compreender tudo,a princesa se viu com muito mais idade..percebeu que
envelhecera,que se tornara sábia e serenamente feliz,que estava em completa
harmonia com a natureza e que não havia princesa,nem” eu” nenhum.Sempre fomos
“nós”Não existe eu...só existe
nós.
Entendendo que agora
a vovó ia dizer”:acabou-se a história,morreu vitória,quem quiser que conte
outra”...os dois a abraçaram e ela teve certeza de que deveria começar uma
segunda “paramiti”
Cotchini closti demeni...