segunda-feira, 22 de junho de 2020

Cotchini Closti




 

 

 

 

Cotchini closti!

 

   

 

 

 Vovó Eleni sentou-se na cadeira confortável,chamou Tomás e Pedro com a cantilena que ouvia na infância  e dois pares de olhos infantis arregalados,repetiram com ela”cotchini closti demeni,stin anemi tilimeni,dostu clotso na girici,paramiti narhinice”

Nenhum deles sabia mais do que o significa de “paramiti”(historinhas),nem era fácil para a avó, traduzir algo que em grego fazia som de frases rimadas e sincopadas  e que a rigor era uma metáfora singela: “linha vermelha ,emaranhada ao  vento,damos  um tranco para desembaraçar, para que também  a história possa se desenrolar”. Para eles bastava o som,o sentido e a certeza de que a avó ia contar uma historinha daquelas de antigamente:

“Tchino ton geron tchino ta zamanha”... ena vassileu...”

Sim naquele tempo e naquele passado havia um rei... e daqui ela continuava em português,porque seus netos paraibanos não acompanhariam mais nada dito em grego.

A bem da verdade, nem a avó saberia muito mais.Seu grego,ouvido em toda a infância,falado por avós e tios,era bom o suficiente para entender quase tudo,mas falava apenas para ser entendida e provocar algum riso.Mas ela gostava muito e nesse tempo de “pandemônio” voltar às próprias raízes fazia mais do que bem.Era vital!

Com as plantas já aprendera que no inverno a seiva volta para as raízes e lá se protege.Voltava para a parte grega de suas raízes e continuava sendo a eterna avó.

Naquele tempo,naquele passado,havia um rei poderoso.Sua filha era uma princesinha  de onze anos,como você Tomás e como eu se chamava Eleni.Era  muito inquieta e curiosa.Seu pai,o rei  Mihail  era amado e temido ao mesmo tempo.Seu temperamento forte e instável intimidava um pouco aos filhos e a esposa.Contudo,comunicava a todos eles muita segurança e certeza de que nada,nem ninguém poderia fazer mal a quem quer que fosse daquela casa real.

         A mãe,criatura bondosa,eclipsada pela força do pai,cuidava para que nenhuma regra dentro do palácio fosse quebrada e assim agradar seu marido e senhor,a quem amava e temia a um só tempo.

         A primogênita, princesinha Eleni,sem ser propriamente bela, exibia  a graça e a vivacidade de uma gazela dos campos da  região  e sua extrema agilidade mental, fazia dela a principal inquisidora dentro do palácio. Passava a maior parte do tempo perguntando e perguntando sobre cada astro no céu, cada planta que encontrava desconhecida, sobre o tempo e o espaço,sobre as dimensões desses conceitos e de cada fenômeno que a natureza apresentava diante de seus sentidos .O alvo predileto de suas investidas intelectuais era o preceptor Ulysses ainda jovem  mas já muito sábio ,que lhe dizia”Patria cara,carior libertas,veritas caríssima”.

Com ele,aprendia  os nomes das estrelas, o movimento da Lua, descobria segredos da vida no mar , plantas medicinais, conhecia o significado de palavras exóticas de idiomas diversos.

         Com a avó aprendia , em lindas histórias dos tempos remotos as origens de sua família e com o mestre,Ulysses, o conteúdo imemorial do pensamento humano.

         A caminho da casinha onde viviam seus avós,Eleni sempre desfrutava com imenso prazer, do ar impregnado dos odores de folhas e troncos umedecidos e que rescendiam a resinas e lhe proporcionavam grande bem-estar. Sentia-se parte integrante da natureza, quase como uma espécie vegetal e sempre que caminhava pela trilha no meio da floresta, olhava cuidadosa e atentamente ,dialogando até mesmo com as gotas de orvalho.Todas lhe diziam coisas...ela ouvia e aprendia.

Certo dia, percebeu atrás de um tronco de frondoso eucalipto da Índia, cujo odor  lhe agradava de modo especial, um movimento estranho e rápido, como de alguém que fugisse da possibilidade de ser visto.Assustou-se e experimentou a sensação de urgência de sair dali, mas sua grande curiosidade a fez respirar fundo,recuar, acalmar-se e  e investigar.Esperta e cautelosa, começou a choramingar de mentirinha, ,dizendo-se perdida na floresta, imaginando que o que quer que fosse que ali estivesse, renunciaria a qualquer intenção de malignidade , se esta existisse ,diante de uma menininha indefesa...Sua suposição estava certíssima. Em poucos minutos, surgiu por detrás do tronco um estranha figura, pequena , de um ser que parecia uma anão,vestido como o bobo da corte, mas com fisionomia bem mais carregada de seriedade e lucidez...podia ser um duende...era um duende! Seu olhar a impressionou de imediato, vigoroso, penetrante e direto.Confiáveis ! Eleni relaxou e abandonou a postura estudada de menininha perdida e assustada. Percebeu que aquele ser sabia mais, muito mais do que todos os que sabiam muito.

          _Quem é você, perguntou o duende?

         __Eu sou Eleni, a filha do rei Mihail.

         __Não lhe perguntei o nome e nem filha de quem você é esperta garotinha.Perguntei-lhe quem você é?

         __Bem, então...bem, então eu sou uma menina de12 anos.

         __Outra vez! Não lhe perguntei sobre o que é evidente como ser uma menina e nem sobre sua idade... repito que estou querendo saber apenas quem é você e nenhuma outra circunstância especial sobre sua pessoa.

         ­­_Então, nem adianta dizer-lhe que sou neta de quem sou, filha de quem sou, meu nome e posição neste reino...nada disso lhe satisfará ?

         _Satisfaz a você, perguntou o duende?

         _Bem, tem bastado...até hoje, penso que sou quem penso que sou...não por imaginar, mas por ver comprovados todos os dados que lhe forneci sobre mim...Essa sou eu...

         _Há...HÁ...HÁ... o duende riu-se gostosamente da resposta da menina...que graça! Imagine se cada roupa que uma pessoa veste for usada  para identificá-la...será engraçado...Você é tudo isso também,mas poderia ter outro nome e ser você...ou não?

         _Então, gaguejou a menina, quem sou eu?

         _Parabéns  festejou o duende que em seguida disse seu nome: Chamam-me Nuno e eu simpatizo com esse sinal  que me ajuda a ser encontrado pelas pessoas...mas meu encontro comigo mesmo faz outro caminho.

         _Qual é esse caminho , perguntou a perguntadora...

         _Ah! Muito bem...você está progredindo. Esse caminho começa com a pergunta que você acabou de fazer: Quem sou eu?

         _E a resposta? quis saber a menina

         _A resposta virá sempre que você  fizer perguntas bem feitas. Sobre você , pergunte tudo o que puder a  si mesma e a quantas pessoas no mundo puder e terá a resposta, e quando ela vier, você saberá.Lembre-se do que lhe disse o seu preceptor:”Pátria cara, carior libertas, veritas caríssima” ....pergunte...pergunte...pergunte....e olhe sempre no fundo dos olhos , ouça muitas vezes a mesma coisa, fale pouco e bem ,não perca o contato com o cheiro de terra molhada e nem tire os pés do chão...Use a pele ...Você saberá ...Deus a abençõe e proteja de tudo o que ainda não sabe, pois na ignorância estão os perigos que mais a ameaçarão...você somente verá o que sabe e conhece e enquanto isso...até mesmo sua sombra é sua inimiga....Lembre-se de tudo o que lhe disse  e acredite.

         Dizendo isso, o duende desapareceu tão rápido como havia aparecido e em seu lugar, deixou uma marca , que seguramente ninguém mais veria.Eleni veria sempre...ela vira o duende e vira a marca se formar em seu lugar.Percebeu  a veracidade do que ele dissera:você só pode ver o que conhece.

O tempo passou,Eleni cresceu e muita coisa ruim aconteceu.Foram anos de guerras,de ganância desmedida,de falta de amor e de solidariedade.O reino de seu pai desapareceu em meio a invasões e ela sobreviveu e passou a viver no Brasil, sem a pompa do antigo mundo conhecido.Via o que nunca vira:carências e desigualdades que a perturbavam mais e mais.Qual é a fonte disso ?Para que vivemos?Onde está o tesouro que sinto que deve existir,para além daqueles tesouros acumulados por meu pai,que já não existem?

_Em meio a tantas dúvidas ,certo dia ,sentiu novamente o aroma do eucalipto da India, percebeu um movimento entre as folhas e lá estava ele:Nuno,o duende voltara.Lembrou-se de seu primeiro encontro,quando ainda achava que sabia tudo sobre si e sobre o mundo conhecido.Sentiu alegria mas percebeu que ele não era mais tão brincalhão.Ela não estranhou o encontro,pois há algum tempo vinha desejando muito isso.

Ele a olhou sério sem nada dizer.Depois fez algumas piruetas e  perguntou:

_Como está princesinha,filha do rei Mihail?

Sem responder a jovem disparou:

_O egoísmo...o que é?Onde se esconde?

_Essa não é a pergunta adequada.Se fosse possível saber onde se esconde, lá o procuraríamos.

_Sei,disse ela, que o egoísmo se metamorfoseia.é um camaleão sagaz e se faz presente em quase todos os projetos de vida.Frustra a  busca de felicidade e de realização da alma.Quero saber onde devo procurar para identificar e  eliminar ou ao menos para caminhar sem me sujeitar aos seus ditames.Já aprendi que se fantasia até de caridade por vezes.

_Humm...sei que tudo o que mais quer é ser parte do grande evento cósmico,não é ?

_A propósito,você que gosta de raízes,já experimentou voltar-se para suas raízes indígenas?

“Você sabe delas,perguntou a princesa...pensei que soubesse só do lado grego de minha ascendência!”

O duende deu uma gargalhada...”sei tudo!Sei que um antepassado veio para o Brasil,casou-se com uma bugrinha matogrossense que teve três filhos e morreu muito jovem.Seu pai,o rei Mihail era o segundogênito.Essa avó está viva no seu sangue e vai te dar as respostas.Se quiser saber o que ela escreveria para você se pudesse,leia a” Carta do chefe Seattle”.Um presidente de uma nação poderosa quis comprar as terras da tribo da qual ele era o cacique e verá respostas sobre o que é a Vida e quem você de verdade.

Eleni correu para prateleiras nunca antes visitadas,encontrou a carta.Leu e encontrou todas as respostas.Pedro,Tomás.um dia vocês a lerão também...por agora vou apenas repetir a vocês as partes das quais eu me lembro porque também fiz questão do conhecê-la.

Vejam por exemplo estas:

“Se não possuis o frescor do ar ou o brilho da água,como podeis querer comprá-los?”

“Somos parte da terra e ela é parte de nós”

“O ar é precioso para o homem vermelho,pois dele todos se alimentam.”

“De uma coisa temos certeza, a terra não pertence ao homem branco,o homem branco pertence à terra”

“O homem não tece a teia da vida;antes,ele é um de seus fios..o que quer que faça a essa teia fará a si próprio”

“Talvez,apesar de tudo sejamos todos irmãos.Nós o veremos.De uma coisa,sabemos-e que talvez o homem branco venha a descobrir um dia-nosso Deus é o mesmo Deus.Podeis pensar hoje que somente vós O possuis,como desejais possuir a terra,mas não podeis.Ele é o deus do homem e Sua compaixão é igual tanto para o homem branco quanto para o homem vermelho.Esta terra é querida Dele e ofender a terra é insultar o seu Criador.Os brancos também passarão;talvez mais cedo-do que todas as outras tribos.Contaminai a vossa cama e vos sufocareis numa noite,no meio de vossos próprios excrementos.”

“Onde está a águia?desapareceu.O fim do viver e o início do sobreviver!”

Esse encontro com as raízes indígenas foi definitivo para Eleni.Quando quis agradecer,viu que o duende se fora.

Ao compreender tudo,a princesa se viu com muito mais idade..percebeu que envelhecera,que se tornara sábia e serenamente feliz,que estava em completa harmonia com a natureza e que não havia princesa,nem” eu” nenhum.Sempre fomos “nós”Não existe eu...só existe nós.

Entendendo que agora a vovó ia dizer”:acabou-se a história,morreu vitória,quem quiser que conte outra”...os dois a abraçaram e ela teve certeza de que deveria começar uma segunda “paramiti”

Cotchini closti demeni...

 

 

 

 

Cotchini closti!

 

 (Helena Zarvos-Lins(S.P)    

 

 

 Vovó Eleni sentou-se na cadeira confortável,chamou Tomás e Pedro com a cantilena que ouvia na infância  e dois pares de olhos infantis arregalados,repetiram com ela”cotchini closti demeni,stin anemi tilimeni,dostu clotso na girici,paramiti narhinice”

Nenhum deles sabia mais do que o significa de “paramiti”(historinhas),nem era fácil para a avó, traduzir algo que em grego fazia som de frases rimadas e sincopadas  e que a rigor era uma metáfora singela: “linha vermelha ,emaranhada ao  vento,damos  um tranco para desembaraçar, para que também  a história possa se desenrolar”. Para eles bastava o som,o sentido e a certeza de que a avó ia contar uma historinha daquelas de antigamente:

“Tchino ton geron tchino ta zamanha”... ena vassileu...”

Sim naquele tempo e naquele passado havia um rei... e daqui ela continuava em português,porque seus netos paraibanos não acompanhariam mais nada dito em grego.

A bem da verdade, nem a avó saberia muito mais.Seu grego,ouvido em toda a infância,falado por avós e tios,era bom o suficiente para entender quase tudo,mas falava apenas para ser entendida e provocar algum riso.Mas ela gostava muito e nesse tempo de “pandemônio” voltar às próprias raízes fazia mais do que bem.Era vital!

Com as plantas já aprendera que no inverno a seiva volta para as raízes e lá se protege.Voltava para a parte grega de suas raízes e continuava sendo a eterna avó.

Naquele tempo,naquele passado,havia um rei poderoso.Sua filha era uma princesinha  de onze anos,como você Tomás e como eu se chamava Eleni.Era  muito inquieta e curiosa.Seu pai,o rei  Mihail  era amado e temido ao mesmo tempo.Seu temperamento forte e instável intimidava um pouco aos filhos e a esposa.Contudo,comunicava a todos eles muita segurança e certeza de que nada,nem ninguém poderia fazer mal a quem quer que fosse daquela casa real.

         A mãe,criatura bondosa,eclipsada pela força do pai,cuidava para que nenhuma regra dentro do palácio fosse quebrada e assim agradar seu marido e senhor,a quem amava e temia a um só tempo.

         A primogênita, princesinha Eleni,sem ser propriamente bela, exibia  a graça e a vivacidade de uma gazela dos campos da  região  e sua extrema agilidade mental, fazia dela a principal inquisidora dentro do palácio. Passava a maior parte do tempo perguntando e perguntando sobre cada astro no céu, cada planta que encontrava desconhecida, sobre o tempo e o espaço,sobre as dimensões desses conceitos e de cada fenômeno que a natureza apresentava diante de seus sentidos .O alvo predileto de suas investidas intelectuais era o preceptor Ulysses ainda jovem  mas já muito sábio ,que lhe dizia”Patria cara,carior libertas,veritas caríssima”.

Com ele,aprendia  os nomes das estrelas, o movimento da Lua, descobria segredos da vida no mar , plantas medicinais, conhecia o significado de palavras exóticas de idiomas diversos.

         Com a avó aprendia , em lindas histórias dos tempos remotos as origens de sua família e com o mestre,Ulysses, o conteúdo imemorial do pensamento humano.

         A caminho da casinha onde viviam seus avós,Eleni sempre desfrutava com imenso prazer, do ar impregnado dos odores de folhas e troncos umedecidos e que rescendiam a resinas e lhe proporcionavam grande bem-estar. Sentia-se parte integrante da natureza, quase como uma espécie vegetal e sempre que caminhava pela trilha no meio da floresta, olhava cuidadosa e atentamente ,dialogando até mesmo com as gotas de orvalho.Todas lhe diziam coisas...ela ouvia e aprendia.

Certo dia, percebeu atrás de um tronco de frondoso eucalipto da Índia, cujo odor  lhe agradava de modo especial, um movimento estranho e rápido, como de alguém que fugisse da possibilidade de ser visto.Assustou-se e experimentou a sensação de urgência de sair dali, mas sua grande curiosidade a fez respirar fundo,recuar, acalmar-se e  e investigar.Esperta e cautelosa, começou a choramingar de mentirinha, ,dizendo-se perdida na floresta, imaginando que o que quer que fosse que ali estivesse, renunciaria a qualquer intenção de malignidade , se esta existisse ,diante de uma menininha indefesa...Sua suposição estava certíssima. Em poucos minutos, surgiu por detrás do tronco um estranha figura, pequena , de um ser que parecia uma anão,vestido como o bobo da corte, mas com fisionomia bem mais carregada de seriedade e lucidez...podia ser um duende...era um duende! Seu olhar a impressionou de imediato, vigoroso, penetrante e direto.Confiáveis ! Eleni relaxou e abandonou a postura estudada de menininha perdida e assustada. Percebeu que aquele ser sabia mais, muito mais do que todos os que sabiam muito.

          _Quem é você, perguntou o duende?

         __Eu sou Eleni, a filha do rei Mihail.

         __Não lhe perguntei o nome e nem filha de quem você é esperta garotinha.Perguntei-lhe quem você é?

         __Bem, então...bem, então eu sou uma menina de12 anos.

         __Outra vez! Não lhe perguntei sobre o que é evidente como ser uma menina e nem sobre sua idade... repito que estou querendo saber apenas quem é você e nenhuma outra circunstância especial sobre sua pessoa.

         ­­_Então, nem adianta dizer-lhe que sou neta de quem sou, filha de quem sou, meu nome e posição neste reino...nada disso lhe satisfará ?

         _Satisfaz a você, perguntou o duende?

         _Bem, tem bastado...até hoje, penso que sou quem penso que sou...não por imaginar, mas por ver comprovados todos os dados que lhe forneci sobre mim...Essa sou eu...

         _Há...HÁ...HÁ... o duende riu-se gostosamente da resposta da menina...que graça! Imagine se cada roupa que uma pessoa veste for usada  para identificá-la...será engraçado...Você é tudo isso também,mas poderia ter outro nome e ser você...ou não?

         _Então, gaguejou a menina, quem sou eu?

         _Parabéns  festejou o duende que em seguida disse seu nome: Chamam-me Nuno e eu simpatizo com esse sinal  que me ajuda a ser encontrado pelas pessoas...mas meu encontro comigo mesmo faz outro caminho.

         _Qual é esse caminho , perguntou a perguntadora...

         _Ah! Muito bem...você está progredindo. Esse caminho começa com a pergunta que você acabou de fazer: Quem sou eu?

         _E a resposta? quis saber a menina

         _A resposta virá sempre que você  fizer perguntas bem feitas. Sobre você , pergunte tudo o que puder a  si mesma e a quantas pessoas no mundo puder e terá a resposta, e quando ela vier, você saberá.Lembre-se do que lhe disse o seu preceptor:”Pátria cara, carior libertas, veritas caríssima” ....pergunte...pergunte...pergunte....e olhe sempre no fundo dos olhos , ouça muitas vezes a mesma coisa, fale pouco e bem ,não perca o contato com o cheiro de terra molhada e nem tire os pés do chão...Use a pele ...Você saberá ...Deus a abençõe e proteja de tudo o que ainda não sabe, pois na ignorância estão os perigos que mais a ameaçarão...você somente verá o que sabe e conhece e enquanto isso...até mesmo sua sombra é sua inimiga....Lembre-se de tudo o que lhe disse  e acredite.

         Dizendo isso, o duende desapareceu tão rápido como havia aparecido e em seu lugar, deixou uma marca , que seguramente ninguém mais veria.Eleni veria sempre...ela vira o duende e vira a marca se formar em seu lugar.Percebeu  a veracidade do que ele dissera:você só pode ver o que conhece.

O tempo passou,Eleni cresceu e muita coisa ruim aconteceu.Foram anos de guerras,de ganância desmedida,de falta de amor e de solidariedade.O reino de seu pai desapareceu em meio a invasões e ela sobreviveu e passou a viver no Brasil, sem a pompa do antigo mundo conhecido.Via o que nunca vira:carências e desigualdades que a perturbavam mais e mais.Qual é a fonte disso ?Para que vivemos?Onde está o tesouro que sinto que deve existir,para além daqueles tesouros acumulados por meu pai,que já não existem?

_Em meio a tantas dúvidas ,certo dia ,sentiu novamente o aroma do eucalipto da India, percebeu um movimento entre as folhas e lá estava ele:Nuno,o duende voltara.Lembrou-se de seu primeiro encontro,quando ainda achava que sabia tudo sobre si e sobre o mundo conhecido.Sentiu alegria mas percebeu que ele não era mais tão brincalhão.Ela não estranhou o encontro,pois há algum tempo vinha desejando muito isso.

Ele a olhou sério sem nada dizer.Depois fez algumas piruetas e  perguntou:

_Como está princesinha,filha do rei Mihail?

Sem responder a jovem disparou:

_O egoísmo...o que é?Onde se esconde?

_Essa não é a pergunta adequada.Se fosse possível saber onde se esconde, lá o procuraríamos.

_Sei,disse ela, que o egoísmo se metamorfoseia.é um camaleão sagaz e se faz presente em quase todos os projetos de vida.Frustra a  busca de felicidade e de realização da alma.Quero saber onde devo procurar para identificar e  eliminar ou ao menos para caminhar sem me sujeitar aos seus ditames.Já aprendi que se fantasia até de caridade por vezes.

_Humm...sei que tudo o que mais quer é ser parte do grande evento cósmico,não é ?

_A propósito,você que gosta de raízes,já experimentou voltar-se para suas raízes indígenas?

“Você sabe delas,perguntou a princesa...pensei que soubesse só do lado grego de minha ascendência!”

O duende deu uma gargalhada...”sei tudo!Sei que um antepassado veio para o Brasil,casou-se com uma bugrinha matogrossense que teve três filhos e morreu muito jovem.Seu pai,o rei Mihail era o segundogênito.Essa avó está viva no seu sangue e vai te dar as respostas.Se quiser saber o que ela escreveria para você se pudesse,leia a” Carta do chefe Seattle”.Um presidente de uma nação poderosa quis comprar as terras da tribo da qual ele era o cacique e verá respostas sobre o que é a Vida e quem você de verdade.

Eleni correu para prateleiras nunca antes visitadas,encontrou a carta.Leu e encontrou todas as respostas.Pedro,Tomás.um dia vocês a lerão também...por agora vou apenas repetir a vocês as partes das quais eu me lembro porque também fiz questão do conhecê-la.

Vejam por exemplo estas:

“Se não possuis o frescor do ar ou o brilho da água,como podeis querer comprá-los?”

“Somos parte da terra e ela é parte de nós”

“O ar é precioso para o homem vermelho,pois dele todos se alimentam.”

“De uma coisa temos certeza, a terra não pertence ao homem branco,o homem branco pertence à terra”

“O homem não tece a teia da vida;antes,ele é um de seus fios..o que quer que faça a essa teia fará a si próprio”

“Talvez,apesar de tudo sejamos todos irmãos.Nós o veremos.De uma coisa,sabemos-e que talvez o homem branco venha a descobrir um dia-nosso Deus é o mesmo Deus.Podeis pensar hoje que somente vós O possuis,como desejais possuir a terra,mas não podeis.Ele é o deus do homem e Sua compaixão é igual tanto para o homem branco quanto para o homem vermelho.Esta terra é querida Dele e ofender a terra é insultar o seu Criador.Os brancos também passarão;talvez mais cedo-do que todas as outras tribos.Contaminai a vossa cama e vos sufocareis numa noite,no meio de vossos próprios excrementos.”

“Onde está a águia?desapareceu.O fim do viver e o início do sobreviver!”

Esse encontro com as raízes indígenas foi definitivo para Eleni.Quando quis agradecer,viu que o duende se fora.

Ao compreender tudo,a princesa se viu com muito mais idade..percebeu que envelhecera,que se tornara sábia e serenamente feliz,que estava em completa harmonia com a natureza e que não havia princesa,nem” eu” nenhum.Sempre fomos “nós”Não existe eu...só existe nós.

Entendendo que agora a vovó ia dizer”:acabou-se a história,morreu vitória,quem quiser que conte outra”...os dois a abraçaram e ela teve certeza de que deveria começar uma segunda “paramiti”

Cotchini closti demeni...

 

 

 

 

Cotchini closti!

 

 (Helena Zarvos-Lins(S.P)    

 

 

 Vovó Eleni sentou-se na cadeira confortável,chamou Tomás e Pedro com a cantilena que ouvia na infância  e dois pares de olhos infantis arregalados,repetiram com ela”cotchini closti demeni,stin anemi tilimeni,dostu clotso na girici,paramiti narhinice”

Nenhum deles sabia mais do que o significa de “paramiti”(historinhas),nem era fácil para a avó, traduzir algo que em grego fazia som de frases rimadas e sincopadas  e que a rigor era uma metáfora singela: “linha vermelha ,emaranhada ao  vento,damos  um tranco para desembaraçar, para que também  a história possa se desenrolar”. Para eles bastava o som,o sentido e a certeza de que a avó ia contar uma historinha daquelas de antigamente:

“Tchino ton geron tchino ta zamanha”... ena vassileu...”

Sim naquele tempo e naquele passado havia um rei... e daqui ela continuava em português,porque seus netos paraibanos não acompanhariam mais nada dito em grego.

A bem da verdade, nem a avó saberia muito mais.Seu grego,ouvido em toda a infância,falado por avós e tios,era bom o suficiente para entender quase tudo,mas falava apenas para ser entendida e provocar algum riso.Mas ela gostava muito e nesse tempo de “pandemônio” voltar às próprias raízes fazia mais do que bem.Era vital!

Com as plantas já aprendera que no inverno a seiva volta para as raízes e lá se protege.Voltava para a parte grega de suas raízes e continuava sendo a eterna avó.

Naquele tempo,naquele passado,havia um rei poderoso.Sua filha era uma princesinha  de onze anos,como você Tomás e como eu se chamava Eleni.Era  muito inquieta e curiosa.Seu pai,o rei  Mihail  era amado e temido ao mesmo tempo.Seu temperamento forte e instável intimidava um pouco aos filhos e a esposa.Contudo,comunicava a todos eles muita segurança e certeza de que nada,nem ninguém poderia fazer mal a quem quer que fosse daquela casa real.

         A mãe,criatura bondosa,eclipsada pela força do pai,cuidava para que nenhuma regra dentro do palácio fosse quebrada e assim agradar seu marido e senhor,a quem amava e temia a um só tempo.

         A primogênita, princesinha Eleni,sem ser propriamente bela, exibia  a graça e a vivacidade de uma gazela dos campos da  região  e sua extrema agilidade mental, fazia dela a principal inquisidora dentro do palácio. Passava a maior parte do tempo perguntando e perguntando sobre cada astro no céu, cada planta que encontrava desconhecida, sobre o tempo e o espaço,sobre as dimensões desses conceitos e de cada fenômeno que a natureza apresentava diante de seus sentidos .O alvo predileto de suas investidas intelectuais era o preceptor Ulysses ainda jovem  mas já muito sábio ,que lhe dizia”Patria cara,carior libertas,veritas caríssima”.

Com ele,aprendia  os nomes das estrelas, o movimento da Lua, descobria segredos da vida no mar , plantas medicinais, conhecia o significado de palavras exóticas de idiomas diversos.

         Com a avó aprendia , em lindas histórias dos tempos remotos as origens de sua família e com o mestre,Ulysses, o conteúdo imemorial do pensamento humano.

         A caminho da casinha onde viviam seus avós,Eleni sempre desfrutava com imenso prazer, do ar impregnado dos odores de folhas e troncos umedecidos e que rescendiam a resinas e lhe proporcionavam grande bem-estar. Sentia-se parte integrante da natureza, quase como uma espécie vegetal e sempre que caminhava pela trilha no meio da floresta, olhava cuidadosa e atentamente ,dialogando até mesmo com as gotas de orvalho.Todas lhe diziam coisas...ela ouvia e aprendia.

Certo dia, percebeu atrás de um tronco de frondoso eucalipto da Índia, cujo odor  lhe agradava de modo especial, um movimento estranho e rápido, como de alguém que fugisse da possibilidade de ser visto.Assustou-se e experimentou a sensação de urgência de sair dali, mas sua grande curiosidade a fez respirar fundo,recuar, acalmar-se e  e investigar.Esperta e cautelosa, começou a choramingar de mentirinha, ,dizendo-se perdida na floresta, imaginando que o que quer que fosse que ali estivesse, renunciaria a qualquer intenção de malignidade , se esta existisse ,diante de uma menininha indefesa...Sua suposição estava certíssima. Em poucos minutos, surgiu por detrás do tronco um estranha figura, pequena , de um ser que parecia uma anão,vestido como o bobo da corte, mas com fisionomia bem mais carregada de seriedade e lucidez...podia ser um duende...era um duende! Seu olhar a impressionou de imediato, vigoroso, penetrante e direto.Confiáveis ! Eleni relaxou e abandonou a postura estudada de menininha perdida e assustada. Percebeu que aquele ser sabia mais, muito mais do que todos os que sabiam muito.

          _Quem é você, perguntou o duende?

         __Eu sou Eleni, a filha do rei Mihail.

         __Não lhe perguntei o nome e nem filha de quem você é esperta garotinha.Perguntei-lhe quem você é?

         __Bem, então...bem, então eu sou uma menina de12 anos.

         __Outra vez! Não lhe perguntei sobre o que é evidente como ser uma menina e nem sobre sua idade... repito que estou querendo saber apenas quem é você e nenhuma outra circunstância especial sobre sua pessoa.

         ­­_Então, nem adianta dizer-lhe que sou neta de quem sou, filha de quem sou, meu nome e posição neste reino...nada disso lhe satisfará ?

         _Satisfaz a você, perguntou o duende?

         _Bem, tem bastado...até hoje, penso que sou quem penso que sou...não por imaginar, mas por ver comprovados todos os dados que lhe forneci sobre mim...Essa sou eu...

         _Há...HÁ...HÁ... o duende riu-se gostosamente da resposta da menina...que graça! Imagine se cada roupa que uma pessoa veste for usada  para identificá-la...será engraçado...Você é tudo isso também,mas poderia ter outro nome e ser você...ou não?

         _Então, gaguejou a menina, quem sou eu?

         _Parabéns  festejou o duende que em seguida disse seu nome: Chamam-me Nuno e eu simpatizo com esse sinal  que me ajuda a ser encontrado pelas pessoas...mas meu encontro comigo mesmo faz outro caminho.

         _Qual é esse caminho , perguntou a perguntadora...

         _Ah! Muito bem...você está progredindo. Esse caminho começa com a pergunta que você acabou de fazer: Quem sou eu?

         _E a resposta? quis saber a menina

         _A resposta virá sempre que você  fizer perguntas bem feitas. Sobre você , pergunte tudo o que puder a  si mesma e a quantas pessoas no mundo puder e terá a resposta, e quando ela vier, você saberá.Lembre-se do que lhe disse o seu preceptor:”Pátria cara, carior libertas, veritas caríssima” ....pergunte...pergunte...pergunte....e olhe sempre no fundo dos olhos , ouça muitas vezes a mesma coisa, fale pouco e bem ,não perca o contato com o cheiro de terra molhada e nem tire os pés do chão...Use a pele ...Você saberá ...Deus a abençõe e proteja de tudo o que ainda não sabe, pois na ignorância estão os perigos que mais a ameaçarão...você somente verá o que sabe e conhece e enquanto isso...até mesmo sua sombra é sua inimiga....Lembre-se de tudo o que lhe disse  e acredite.

         Dizendo isso, o duende desapareceu tão rápido como havia aparecido e em seu lugar, deixou uma marca , que seguramente ninguém mais veria.Eleni veria sempre...ela vira o duende e vira a marca se formar em seu lugar.Percebeu  a veracidade do que ele dissera:você só pode ver o que conhece.

O tempo passou,Eleni cresceu e muita coisa ruim aconteceu.Foram anos de guerras,de ganância desmedida,de falta de amor e de solidariedade.O reino de seu pai desapareceu em meio a invasões e ela sobreviveu e passou a viver no Brasil, sem a pompa do antigo mundo conhecido.Via o que nunca vira:carências e desigualdades que a perturbavam mais e mais.Qual é a fonte disso ?Para que vivemos?Onde está o tesouro que sinto que deve existir,para além daqueles tesouros acumulados por meu pai,que já não existem?

_Em meio a tantas dúvidas ,certo dia ,sentiu novamente o aroma do eucalipto da India, percebeu um movimento entre as folhas e lá estava ele:Nuno,o duende voltara.Lembrou-se de seu primeiro encontro,quando ainda achava que sabia tudo sobre si e sobre o mundo conhecido.Sentiu alegria mas percebeu que ele não era mais tão brincalhão.Ela não estranhou o encontro,pois há algum tempo vinha desejando muito isso.

Ele a olhou sério sem nada dizer.Depois fez algumas piruetas e  perguntou:

_Como está princesinha,filha do rei Mihail?

Sem responder a jovem disparou:

_O egoísmo...o que é?Onde se esconde?

_Essa não é a pergunta adequada.Se fosse possível saber onde se esconde, lá o procuraríamos.

_Sei,disse ela, que o egoísmo se metamorfoseia.é um camaleão sagaz e se faz presente em quase todos os projetos de vida.Frustra a  busca de felicidade e de realização da alma.Quero saber onde devo procurar para identificar e  eliminar ou ao menos para caminhar sem me sujeitar aos seus ditames.Já aprendi que se fantasia até de caridade por vezes.

_Humm...sei que tudo o que mais quer é ser parte do grande evento cósmico,não é ?

_A propósito,você que gosta de raízes,já experimentou voltar-se para suas raízes indígenas?

“Você sabe delas,perguntou a princesa...pensei que soubesse só do lado grego de minha ascendência!”

O duende deu uma gargalhada...”sei tudo!Sei que um antepassado veio para o Brasil,casou-se com uma bugrinha matogrossense que teve três filhos e morreu muito jovem.Seu pai,o rei Mihail era o segundogênito.Essa avó está viva no seu sangue e vai te dar as respostas.Se quiser saber o que ela escreveria para você se pudesse,leia a” Carta do chefe Seattle”.Um presidente de uma nação poderosa quis comprar as terras da tribo da qual ele era o cacique e verá respostas sobre o que é a Vida e quem você de verdade.

Eleni correu para prateleiras nunca antes visitadas,encontrou a carta.Leu e encontrou todas as respostas.Pedro,Tomás.um dia vocês a lerão também...por agora vou apenas repetir a vocês as partes das quais eu me lembro porque também fiz questão do conhecê-la.

Vejam por exemplo estas:

“Se não possuis o frescor do ar ou o brilho da água,como podeis querer comprá-los?”

“Somos parte da terra e ela é parte de nós”

“O ar é precioso para o homem vermelho,pois dele todos se alimentam.”

“De uma coisa temos certeza, a terra não pertence ao homem branco,o homem branco pertence à terra”

“O homem não tece a teia da vida;antes,ele é um de seus fios..o que quer que faça a essa teia fará a si próprio”

“Talvez,apesar de tudo sejamos todos irmãos.Nós o veremos.De uma coisa,sabemos-e que talvez o homem branco venha a descobrir um dia-nosso Deus é o mesmo Deus.Podeis pensar hoje que somente vós O possuis,como desejais possuir a terra,mas não podeis.Ele é o deus do homem e Sua compaixão é igual tanto para o homem branco quanto para o homem vermelho.Esta terra é querida Dele e ofender a terra é insultar o seu Criador.Os brancos também passarão;talvez mais cedo-do que todas as outras tribos.Contaminai a vossa cama e vos sufocareis numa noite,no meio de vossos próprios excrementos.”

“Onde está a águia?desapareceu.O fim do viver e o início do sobreviver!”

Esse encontro com as raízes indígenas foi definitivo para Eleni.Quando quis agradecer,viu que o duende se fora.

Ao compreender tudo,a princesa se viu com muito mais idade..percebeu que envelhecera,que se tornara sábia e serenamente feliz,que estava em completa harmonia com a natureza e que não havia princesa,nem” eu” nenhum.Sempre fomos “nós”Não existe eu...só existe nós.

Entendendo que agora a vovó ia dizer”:acabou-se a história,morreu vitória,quem quiser que conte outra”...os dois a abraçaram e ela teve certeza de que deveria começar uma segunda “paramiti”

Cotchini closti demeni...