Era para ser um horário de missa,assim como era o das seis,das sete,das oito e das dezoito horas..
A catedral oferecia horários diversos de missa na pequena cidade do interior.Que ninguém deixasse de assistir missa aos domingos por dificuldade com isso.
A das dez,porém tinha tudo de diferente;olhava-se menos para o altar,andava-se mais de salto alto,reparava-se muito quem comungava quem não,observava-se discretamente o da frente, o do lado e quaisquer daqueles que nossa vista alcançasse.
Tomava-se certo cuidado com a escolha de onde sentar,levando sempre em consideração os espaços já ocupados,para não invadir domínios de famílias ou grupos aos quais sabíamos não pertencer.
Entradas muito pontuais eram reservadas para pessoas comuns,menos diferenciadas na sociedade.Quanto mais era para chamar a atenção,mais se chegava um tantinho atrasado à missa,para que muitos e muitos olhares discretos pudessem apreciar e invejar a senhora perfumada,em seu tailleur bem cortado que carregava no antebraço com gesto corretíssimo, a bolsa que fazia par com o sapato de salto alto usado com elegânca estudada e indecorosamente formal como as meias de costura na batata da perna,sempre alinhadíssimas!Ai se estivessem tortas, senhora! E sem fazer toc-toc com os saltos,pois já haviam aprendido que para usá-los adequada e elegantemente,havia que se pisar antes com a ponta dos pés a cada passo. Notem,essa jovem senhora,não passava de seus 25 ,26 anos e já era matrona,entrava como devia entrar a madame fulana de tal,casada,bem casada .Melhor se viesse trazendo pela mão a filha,bela bonequinha de luxo,que na missa das dez,de certo modo já era apresentada à sociedade.
Todas a veriam crescer a cada missa das dez,sempre linda com longos e bem penteados cabelos,vestida a cada domingo com uma veste nova e diferente,por meses,quiça anos,sem cometer a heresia de repetir a mesma,assim como fazia a mãe.
Cabelos bem cortados,curtos como passara a usá-lo desde a volta da lua de mel como um atestado de que já era uma mulher feita,pois que sòmente as solteiras os usavam longos.
Orgulhosa de seu nome de origem,do sobrenome adquirido pelo casamento com um excelente "partido",era esposa do médico.Naquele passado,engenheiros ainda não tinham o status de hoje,administradores de formação não havia ainda...executivos muito menos.Lá ao menos não haviam.Ou esposa do delegado,do advogado ou juiz?Talvez um gerente de banco...sim...gerente de banco das poucas agencias do Banco do Estado,Banco do Brasil,Banco Noroeste....ah sim..Banco Bandeirantes,de lindas e imponentes sedes de beleza arquitetônica clássica.No sobrado mesmo habitava a família do sempre respeitável gerente.
Eram aqueles os "estamentos"que vigoravam no ápice de uma sociedade requintada,formada alí. As jovens que foram estudar nos Colégions Sion ou Des Oiseaux nem sempre voltavam.Sumiam em esferas européias ou paulistanas que nem todas almejavam apenas desfilar numa passarela tão seleta como pequena.
O véu negro nos cabelos bem penteados e fixos com "laquê" substituiram os brancos véus da solteirice e faziam inveja a todas nós da "turma do futuro" que ainda desfilavamos com saiotes esvoaçantes de meninotas casadoiras.Claro...13,14 aninhos já eram pré-vestibulo(de noivados e casamentos).Em pouco tempo,já debutantes,iriamos ajustar nossos "tubinhos",mostrar nossas curvas( as que as tinham eram muito sortudas) e esperar o dia de, já devidamente casadas ir para o desfile na missa das dez, de cabelos cortados e aliança no dedo. Meta alcançada?Sim...se o casamento acontecesse antes de passarmos da idade.Um quarto de século era idade de matrona.
Hoje,50 anos passados de toda essa riqueza de contéudo subliminar para identificação de quem éramos,penso,envelhecente que estou,não na turma do passado,isso nunca...mas na da turma de quem aprendeu cedo a querer viver o presente,um dia de cada vez,aprendendo sempre,lendo..e relendo livros que sustentaram muita contestação do que é bom e belo para uma sociedade verdadeiramente decente.Quantas de nós,ainda frequentam a missa das dez?
Muitas,eu espero,rezam de verdade nas missas das 18 ou das 8 da manhã,ou melhor ainda, em casa e no coração.
Quem sabe quantas,até fazem mais do que rezar por esse mundo melhor.
Paz e Bem!
domingo, 3 de maio de 2020
Assinar:
Comentários (Atom)