domingo, 12 de agosto de 2018

A casa da avenida Paulista

Em 1938,toda a família se mudou para São Paulo,para um palacete na avenida Paulista,local onde então residiam os afortunados do início do século.Luxo,elegância,classe,requinte...assimilados com naturalidade,sem afetação,pelo comerciante bem sucedido,mas que nunca esqueceu sua origem e sua família na Grécia.Localizada na altura do número 1063,sua residência era vizinha à da família Matarazzo,outro imigrante,que havia vindo de Castelabatte,em Napoli,a procura de melhores condições,como ele.Em Lins, o sobrinho,Miguelzinho,como era conhecido o recém-chegado da ilha de Rhodes,meu pai,ficou como gerente-geral da Cafeeira.
Entre 1938 e 1948 quando faleceu,comprou Máquinas de café e arroz em Cafelândia,em Guaimbê,de algodão em Birigui e aumentou muito o movimento.De seu escritório em Lins,Miguelzinho dirigia conforme a orientação do tio.Centenas de vagões,carregavam e descarregavam mercadoria no interior enquanto Nicolau em São Paulo operava na Bolsa de  Mercadorias.
Enriquecia mais e ràpidamente devido a seu extraordinário tino comercial ,coragem e honestidade.Trabalhava muito,mas a essa altura já sentia dores e tinha a saúde debilitada.Ainda assim,comprou a Fazenda Itapura de 10.000 alqueires e logo em seguida a fazenda Capão Bonito em Campo Grande,(63.000 alqueires),prédios e terrenos em São Paulo nos melhores e mais valorizados pontos.Em Lins, construiu 60 casas,o Lins Hotel e já havia comprado o Hotel Central(atual Plaza Hotel)de um antigo proprietário alemão.
Fez muitos amigos,entre eles,dr.Urbano,que foi prefeito da cidade,o também prefeito Paulo Lusvarghi,dr.Nestor de Cunto  e muitos mais.Wadih Haman,foi um dentre os muitos amigos sírios.
Em 1948 visitou Lins pela última vez,.Foi com o sobrinho Miguelzinho,até a casa em Lins,que ora se encontra em processo de recuperação,olhou demoradamente para a residência,passou as mãos,carinhosamente pelos muros,nos troncos das palmeiras que ele mesmo plantara.Despediu-se dos amigos pressentindo que já não os veria.Comunicou-lhes que iria para os Estados Unidos para se operar,ainda que muito insistisse seu amigo dr.De Cunto,para que fizesse a cirurgia aqui mesmo.Inclusive,ele mesmo poderia fazer.
Os gregos antigos,dizem que o destino de cada um(Mira) nem mesmo os deuses conseguem mudar.
Despediu-se da cidade que tanto amou e com o crescimento da qual colaborou.
Grande homem! Generoso,atuou durante a Guerra,a segunda,numa frente solidária (o Comitê Helenico de Socorro às vitimas de Guerra.)
Sua casa em Lins foi doada à prefeitura pelos herdeiros para ser ali instalada uma Biblioteca e assim foi feito.Biblioteca Municipal Nicolau Zarvos.
A bela avenida que leva seu nome,foi uma homenagem da cidade e dos representantes do povo linense,na Câmara onde a lei foi aprovada,
Nicolau Zarvos, que nunca frequentou uma escola,era convidado pelo Presidente Dutra e antes por Getúlio Vargas para opinar sobre agricultura e comércio.Vestia-se e portava-se como um príncipe,como se tivesse nascido em berço de ouro.
Aqui termina a cronologia escrita por nosso pai,Miguel Antonio Zarvos, e eu ouso,num p.s.lembrar, que nosso tio nasceu num campo de trigo,quando sua mãe ajudava na mesma.Ali,no campo,cercada por todas a mulheres da aldeia que então colhiam o trigo,sua mãe ouvio o vaticínio...será como um rei.O trigo dá sorte...é sinal de que será muito rico.
A vida se encarrregou de fazer dele o rei do café.

sábado, 4 de agosto de 2018

Trajetória do tio Nicolau

Cuiabá!Corumbá! Alto sertão em 1915...a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil chegara a pouco tempo àquelas paragens.Destino de jovens vindos da paradisíaca e pobre ilha de Rhodes,em busca de sobrevivência para os seus,na longínqua ilha e quiça,fortuna...porque não?Afinal,Nicolau sabia em seu coração que a sorte lhe reservava algo.Quando,ao se despedir da mãe,ainda menino viu lágrimas correndo em seu rosto mas garantiu-lhe que " vou tirar nossa família da pobreza mãe...a senhora ainda vai se orgulhar muito de mim"
Antula,a mãe desolada,lembrou-se então do vaticínio ouvido no momento em que seu caçula nascera,num dia de colheita de trigo,em pleno campo":esse menino será como um rei!"
A ela,só restara abraçar e abençoar seu menino que embarcou para um Brasil longínquo,intuindo que nunca mais o veria,mas que,sim...era esse o destino do filho.
Nesse momento,seu destino incluia um mergulho numa "selva selvaggia"do vasto Brasil desconhecido até para os brasileiros,numa rota de linha férrea que desvirginava o interior e revelava segredos zelosamente guardados há séculos.
Em Corumbá,o trabalho disponível era novamente fornos de cal.De tão longe vieram,para novamente se encontrarem nos infernais fornos de cal,os mais velhos.Nicolau,trabalhou num hotel de um grego por algum tempo ,não muito.Logo conseguiu trabalhar por conta própria,fazendo e fornecendo marmitas aos demais trabalhadores locais.
Corria o ano de 1918 e Nicolau se empregou como garçon na Estrada de Ferro Noroeste do Brasil e no ano seguinte chegou a Lins pela primeira vez.Aqui passou a comprar arroz e cebola para vender em Mato Grosso.
Em 1920,com reservas acumuladas até então,comprou um pequeno armazém perto da Igreja de Santo Antonio  e ali passou a armazenar a mercadoria que comprava para revender e dessa data até 1925 continuou comprando e vendendo cereais e também café.Construiu então,a casa que ora a prefeitura de Lins se propõe a reformar para melhor preservação.Foi a residência da família que constituiu por essa ocasião com dona Haydée,uma jovem educada e linda.
Durante a crise de 1929,o crack da Bolsa de Valores de Nova Iorque,crise internacional de graves proporções,o café desvalorizou muito, mas o jovem empresário no momento estava capitalizado e comprou tantas sacas quanto pôde,a preços muito atrativos e então esperou a alta,que aconteceu depois de certo tempo,quando então pôde vender muito bem o café que estocara..Foi então que ganhou muito dinheiro.Mais do que já vinha acumulando com seu comércio de cereais.Começara a comercializar café pouco antes da crise.Destino?Tino comercial?A Mira como dizem os gregos...mais poderosa que os deuses...a sorte de cada um.Nicolau podia agora crescer.Em breve seria conhecido como o rei do café ,exatamente como havia sido vaticinado.
Em 1931 comprou a primeira máquina de beneficiar café e arroz em Guaiçara e seu amigo e conterrâneo com quem viera de Archangelos,Steliano,passou a gerenciar a "Máquina Santa Helena".No ano seguinte,comprou a "Máquina São Nicolau" em Lins,perto do Córrego Campestre,de beneficiar arroz e café e onde instalou também a beneficiadora de algodão,uma das primeiras da Noroeste do Estado.Ali,naquelas instalações havia desvio exclusivo de trem para carga e descarga de mercadoria.
Em minhas próprias lembranças,vejo um imenso galpão,grande como a área onde atualmente costumam se alojar parques de diversões e circos,perto do Terminal Rodoviário de Lins.Era uma imenso armazém,onde além de estocar,se beneficiava os grãos.Sinto ainda o odor da sacaria...montanhas de sacas de café e algodão;um vai e vem de carregadores,de catadeiras e um entra e sai de vagões de trem.Era tanto movimento  que mesmo hoje,com todo o transito da Lins urbanizada,quando passo por ali,parece que a área ficou esquisita,sem o apito do trem e sem aquela luxuriante azáfama.
As lembranças são da década de 50,quando ele já havia falecido...eu era ainda muito pequena e por isso,as dimensões me pareciam ainda maiores,mas,os relatos comprovam...era mesmo muito café,muito movimento,muito dinheiro.
Por ora,então,um brinde ao que se costuma chamar de "destino"!

O velho Nicolau

A letra do registro cronológico é a presença marcante de nosso pai,falecido em 2011.Inesquecíveis pais,que se foram,mas que continuam presentes em nossos corações,nas lembranças e no jeito de ser.Somos eles,seus filhos,netos e bisnetos.
Por sua vez,ele foi sempre o seu pai,o tio,o avô,bisavô...e todas as histórias que ouviu e nos contou.Transmitiu a paixão pela Grécia,filósofos e todos os símbolos e atitudes que aprendeu.
Os registros que tenho em mãos,data por data,de cada realização e conquista do tio,irmão caçula de seu pai,foram feitas a pedido de alguém que desejava escrever sobre a imigração grega.
O "velho" Nicolau,como sempre foi lembrado,na verdade morreu muito novo aos quarenta e nove anos,mas,como tinha um filho com o mesmo nome,Nicolauzinho e posteriormente um neto também homônimo,a referência ao patriarca era como o "velho Nicolau".
Hoje,por curiosa coincidência alguém me perguntou quem teria sido essa pessoa,quando percebeu que nosso sobrenome é o mesmo.
Numa cidade pequena,com ruas Olavo Bilac,Luis Gama,Osvaldo Cruz e 15 de Novembro como na maioria delas,no interior de São Paulo,uma há,das principais,com seu nome.
Bem verdade, que poucos saberiam dizer quem foram cada um dos homenageados acima,mas a mim,que tenho a proximidade afetiva e sanguínea com o tio Nicolau,pareceu engraçado alguém não saber quem ele era.
Assim,procurei as anotações e me comprometi a contar quem ele foi.A partir dos relatos do sobrinho que tanto o admirou e que o amou como filho.
Imagine a ilha de Rhodes em meio à instabilidade do final do Império Otomano e invasão italiana no ano de 1912.Ainda que os gregos não gostassem nada dos turcos dominadores,era na Ásia Menor,como denominavam a Turquia,que encontravam seu trabalho e sustento.Grande parte das vezes,como operários em fornos de cal.Muito bem,esse canal de sustentação cessou.Não havia mais como trabalhar e menos ainda havia oportunidades na pequena Archangelos,onde viviam nossos ancestrais,desde muito.
Verdade que o tempo mostrou que os italianos fizeram bem à ilha,mas até aí três jovens destemidos já haviam viajado para o Brasil...a América que tanto prometia no começo do século XIX.
O menor deles...o velho Nicolau com apenas 13 anos de idade.
Chegando,tentaram se estabelecer na capital,os maiores trabalhando na construção civil enquanto o pequeno Nicolau vendia jornais nas ruas sem sequer lhe passar pela cabeça,o quanto dele falariam no futuro.Distribuia o "Imparcial"aos leitores e guardava trocos que ajuntaria às parcas economias dos parentes para conseguirem sobreviver.
Sei que meu avô,o irmão mais velho do Nicolau ,assim como Steliano seu amigo que viria a ser meu avô materno,ajudaram na construção do Viaduto Santa Ifigênia.
É mágico,passar por sob aquela obra que permanece e pensar que seus avós colocaram a mão na massa para construi-lo. Ocorre, que quando começou a I Guerra Mundial,a Grande Guerra como diziam os antigos,os trabalhos cessaram e a embaixada da Grécia no país,orientou seus compatriotas a buscarem trabalho em outras paragens e os três foram parar no Mato Grosso.
Por ora.façamos um brinde à coragem e fé destes bravos antepassados e esperemos que cheguem nas novas paragens.