sábado, 4 de agosto de 2018

O velho Nicolau

A letra do registro cronológico é a presença marcante de nosso pai,falecido em 2011.Inesquecíveis pais,que se foram,mas que continuam presentes em nossos corações,nas lembranças e no jeito de ser.Somos eles,seus filhos,netos e bisnetos.
Por sua vez,ele foi sempre o seu pai,o tio,o avô,bisavô...e todas as histórias que ouviu e nos contou.Transmitiu a paixão pela Grécia,filósofos e todos os símbolos e atitudes que aprendeu.
Os registros que tenho em mãos,data por data,de cada realização e conquista do tio,irmão caçula de seu pai,foram feitas a pedido de alguém que desejava escrever sobre a imigração grega.
O "velho" Nicolau,como sempre foi lembrado,na verdade morreu muito novo aos quarenta e nove anos,mas,como tinha um filho com o mesmo nome,Nicolauzinho e posteriormente um neto também homônimo,a referência ao patriarca era como o "velho Nicolau".
Hoje,por curiosa coincidência alguém me perguntou quem teria sido essa pessoa,quando percebeu que nosso sobrenome é o mesmo.
Numa cidade pequena,com ruas Olavo Bilac,Luis Gama,Osvaldo Cruz e 15 de Novembro como na maioria delas,no interior de São Paulo,uma há,das principais,com seu nome.
Bem verdade, que poucos saberiam dizer quem foram cada um dos homenageados acima,mas a mim,que tenho a proximidade afetiva e sanguínea com o tio Nicolau,pareceu engraçado alguém não saber quem ele era.
Assim,procurei as anotações e me comprometi a contar quem ele foi.A partir dos relatos do sobrinho que tanto o admirou e que o amou como filho.
Imagine a ilha de Rhodes em meio à instabilidade do final do Império Otomano e invasão italiana no ano de 1912.Ainda que os gregos não gostassem nada dos turcos dominadores,era na Ásia Menor,como denominavam a Turquia,que encontravam seu trabalho e sustento.Grande parte das vezes,como operários em fornos de cal.Muito bem,esse canal de sustentação cessou.Não havia mais como trabalhar e menos ainda havia oportunidades na pequena Archangelos,onde viviam nossos ancestrais,desde muito.
Verdade que o tempo mostrou que os italianos fizeram bem à ilha,mas até aí três jovens destemidos já haviam viajado para o Brasil...a América que tanto prometia no começo do século XIX.
O menor deles...o velho Nicolau com apenas 13 anos de idade.
Chegando,tentaram se estabelecer na capital,os maiores trabalhando na construção civil enquanto o pequeno Nicolau vendia jornais nas ruas sem sequer lhe passar pela cabeça,o quanto dele falariam no futuro.Distribuia o "Imparcial"aos leitores e guardava trocos que ajuntaria às parcas economias dos parentes para conseguirem sobreviver.
Sei que meu avô,o irmão mais velho do Nicolau ,assim como Steliano seu amigo que viria a ser meu avô materno,ajudaram na construção do Viaduto Santa Ifigênia.
É mágico,passar por sob aquela obra que permanece e pensar que seus avós colocaram a mão na massa para construi-lo. Ocorre, que quando começou a I Guerra Mundial,a Grande Guerra como diziam os antigos,os trabalhos cessaram e a embaixada da Grécia no país,orientou seus compatriotas a buscarem trabalho em outras paragens e os três foram parar no Mato Grosso.
Por ora.façamos um brinde à coragem e fé destes bravos antepassados e esperemos que cheguem nas novas paragens.

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