terça-feira, 22 de setembro de 2020

O Dilema das redes

         Impressionou muito!O documentário da Netflix me impressionou mesmo já tendo conhecimento de como nossas vida,escolhas,posições políticas e até gosto pessoal são manipulados e formatados nas redes.Somos em parte,frutos das narrativas que de um jeito ou outro sinalizamos na rede que por ela temos uma inclinação,simpatia ou tendência a aceitar como verdade.O algoritmo capta rapidamente a brecha, o espaço vulnerável e atua conforme o interesse ao qual as redes servem.

        De imediato o susto é com a tecnologia em si,com as redes,com os"hackers" de nossa identidade que estão por trás;num segundo momento porém,percebe-se que o vilão não é a tecnologia em si,mas os propósitos ao qual está sujeita,por enquanto.Se digo por enquanto é porque em meio a todo um "brain storm" provocado pelo documentário,pude associar a forma como as redes atuam com (pasmem com meu raciocínio) a concepção de vida de um cacique Seattle cujo Manifesto ao presidente dos EUA considero um dos documentos mais ricos e sábios da humanidade;pude associar com os livros lidos de Harari e até com física quântica e algo como o que me impressionou em Fritjof Capra.

        Diante de autores que apontam em direção a uma conexão possível entre tudo e todos,percebo que apenas o propósito e o espírito de competição próprio do capitalismo( e aqui ele aponta o estágio a que chegou o sistema ou seja "capitalismo de vigilância").Este,em seus primórdios mirava o monopólio,depois passou a mirar o sistema financeiro também e agora a própria opção intima de cada um,numa feroz tentativa de eliminar todo e qualquer senso crítico.Fim da contradição...seremos todos igualmente peças a serviço e não por conta de força,violência ou qualquer tipo de escravidão,mas,pela manipulação das vontades.

        Ocorre,que há uma luz no final do túnel,pequena mas ainda possível:se(pode parecer conversa de bêbado esse se,mas,preciso desejar) a parcela da humanidade que ainda tem capacidade crítica e capacidade de deliberação,puder conduzir o mundo a destino mais cooperativo,economias mais solidárias,podemos sim nos redimir e ressuscitar o humano,

        Afinal,quando o filme demonstra que estamos subordinados a um cérebro gigantesco produzido artificialmente ,não deixa de nos lembrar que sim...somos de fato neurônios de uma grande rede cósmica e aqui lembro Espinoza e sua concepção de Deus e todas as concepções esotéricas e antigas que dessa forma nos veem.

        O individualismo pós renascentista é que foi, pari passu a evolução do sistema capitalista,se transformando num monstro cujo espírito anima a rede.É sagrada a individualidade.É pernicioso o individualismo;e aqui não pretendo falar de filantropia,mas de vida ,valores,moral e ética baseados em espírito de cooperação,em desejo de vida comunitária e bem comum acima de tudo.

    Dentre as demolições de estruturas filosóficas e ideológicas levadas a termo neste final de século XX, entre outras a inoculação da idéia de que o marxismo morreu e o socialismo não é mais viável.Sem discutir a força dessa narrativa,lembro que espiralando em direção ao alto,ao bom,ao espírito de unidade cósmica podemos acreditar que se quisermos,teremos sim,caminhos a um mundo de respeito,cooperação e que saiba dominar ganância e manipulação.Primeiro porém precisamos querer pensar antes de assimilar o que vem de fora.


            Um brinde à liberdade de ser parte do todo!Somos um!


Helena Zarvos.(22 de setembro de 2020)



quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Um novo contrato social

Li hoje uma matéria interessante.Um colega historiador,desconhecido por mim até hoje e já "favoritado"para usar uma expressão atual.O nome é Bruno Frederico Muller e naturalmente não reproduzirei aqui o que escreve e sugere,num longo debate,inclusive politizado.Vou apenas aproveitar algo que ele levanta como hipótese e trabalha até as conclusões, para tangenciar e pensar algo na mesma linha.
Segundo ele o mundo atual precisaria "refazer o contrato social".
A idéia me capturou pois o que se debate há anos ,por todo o século XX praticamente é a questão do"sistema":capitalismo,marxismo,comunismo,socialismos adjetivados e etc.
De repente, esse estudioso propõe nada menos que uma novo contrato social.algo como "novo normal' da civilização.Não diz nem propõe como seria o novo modelo civilizatório,mas sugere que é esse o caminho:refazer o contrato social.
Do homem exposto a sua animalidade e natureza como diz Rousseau,aos acordos sociais que permitiram vida em sociedade por mais de dois séculos(bem ou mal) estaríamos novamente diante de um impasse e precisando de nova regulação para não voltarmos a algo pré-moderno.
Nem cabe aqui politizar ou discutir o modelo que foi acordado na Revolução Francesa e retocado mil vezes depois.A tentação de me alongar é grande,mas vou ao ponto.
Vida em comunidade e vida em sociedade,são dois modelos historicamente localizados e desde aqui já é reflexão minha inspirada no que gostei de ler.
Comunidades parecem um conceito antigo e medieval,vivido apenas em séculos anteriores ao XVIII e vida em sociedade(que me corrijam os sociólogos) algo posterior.Muito bem:o que penso,sinto e observo me leva a pensar que neste século XXI, em pleno aprendizado sobre quem somos, de forma intensa devido à pandemia,tenhamos que rever tudo e viver em sociedade,com espírito comunitário e ampliando o conceito de clã e família para todo a humanidade.
Sim...todos já pensamos nisso,fala-se dioturnamente nisso,mas...ao vivenciarmos ainda resvalamos em hábitos sedimentados.
Vou exemplificar e deixar mais claro o ponto:hoje em dia,todos fazemos parte de grupos e redes sociais.Muito bem...quantas e quantas situações desagradáveis,agressivas e até rompimentos de relacionamentos familiares,devido a opiniões expressas em fóruns não apropriados.O que fazer?Sair do grupo,sair da rede,todos já fomos tentados,mas o parente está lá,o vizinho está lá,o colega permanecer...não se deleta ou bloqueia alguém senão na rede.
Parece que é urgente conseguimos manter foco e tratar em cada fórum de assuntos comuns a todos,para começar a treinar algo que deverá fazer parte de relações atualizadas e estruturantes e não demolidoras;a delicadeza de não expressar,não criticar,não debater assuntos polêmicos;os antigos"religião e política não se discute" pode muito bem nos ajudar a viver como uma família ou uma comunidade de proximidade geográfica ou de atuação comum,sem necessariamente pensarmos ou sentirmos igual.
Suspeito que a pessoa que hoje considero irmã,mais do que amiga,alguém que conheci de forma peculiar e com quem estive uma única vez presencialmente,possa ter posição política completamente diversa da minha,porém,temos tantas e tantas outras afinidades,que o que distingue,deixamos para lá;não se fala.
Quanta riqueza os relacionamentos,virtuais ou de proximidade física poderiam ter e agregar  ...se evitássemos de tentar impor,discutir,fazer pensar como nós,criticar ou ridicularizar a opinião alheia?
Enfim... esse tema é para reflexão e porque não,debate?.Este sim...talvez seja,o novo contrato social a que aspiramos todos para continuar vivendo mais como espíritos elevados do que como animais comandados por instinto de sobrevivência.(Se for pensamento romântico também faz jus a Rousseau e seus ideais);mas,que penso e aspiro,ah...isso sim!
Um brinde à paz social!


Helena Zarvos-)6 de agosto de 2020

domingo, 19 de julho de 2020

Resposta a Antonio Prata

Domingo pela manhã e essa agradável surpresa:um texto rico,belo e nobre.Escrito pelo filho de um caro amigo de infância.Ambos grandes escritores,o filho e o pai.Nunca conheci você pessoalmente Antonio,mas já gosto desde sua infância,do nome que lhe deram:o mesmo de nosso padroeiro,aqui em Lins,onde nasceu toda uma geração de amigos e amigas de seu pai,que de uberabense que era,acabou linense.
Como uma espécie de tia  portanto,sinto-me livre para lhe responder(sabendo que conhece é claro a resposta )a questão do final do artigo "Preto no Branco" publicada esta manhã pela Folha no UOL.
Com a mesma dor e pudor que sentiu ao precisar tergiversar para responder à pergunta de sua filhota,que queria saber "porque todas as babás são pretas",respondo a você tergiversando e apenas para compartilhar,pois você conhece caminhos e respostas melhores do que nós.
Sabe,Antonio,Lins era uma célula elitista,num Estado elitista por conta da produção de café,num Brasil exportador e porque tínhamos "vocação".Quanta coisa triste o mundo aprovou em nome de "vocação";um danado de um chamado que viria de alguma instância irrecusável!Vocação apontada por Darcy Ribeiro como você lembrou,por Eduardo Galeano que tentou pedir socorro para nossas veias abertas,por Jessé Souza,Chico Buarque,etc,etc...para ficar somente em alguns nomes e nem mencionar políticos ou líderes.
Se me permite,para não deixar de fazer justiça a um destes que me comove pela força e juventude:Guilherme Boulos!
Pois então...como dizia,a coisa vem de longe!
Seu pai se sensibilizou ,desde muito jovem,como tantos de nós.Se não me falha a memória,um dos primeiros textos que submeteu a uma leitura crítica falava de um carroceiro.
Lembro do meu pai lendo e aprovando.
Carroceiros não são altos,louros e brancos;assim como nenhuma das boas lembranças da molecada linense;o Torradim,o Paíca e outros monumentos de"fazer feliz".
O tempo passou,sou septuagenária como seu pai,Lins mudou no seu ritmo,à sua maneira,o Brasil patina a seu modo,mas o futuro tem nome,raça e já bate às portas dos mantenedores dessa antiga ordem estabelecida.
O "ancien régime"vai perecer também e as cores vão mudar.A vida é arco-íris e de cor nenhuma.Sua filhota poderá escrever outra história.
Deus o abençõe!
Saudações ao "Pratinha",nosso amigo de tantos anos!

Helena Zarvos.
19 de julho de 2020.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Fornos de cal

 "Cotchini closti closmeni,tin anemi tilimeni,dostu clostu na girici,paramiti narkinissi!Sentnado-se confortável entre seus netos,vovó Eleni ia repetindo a cantilena..."tino ton geron,tino ta zamanh"...

Era Uma vez,uma pequenina aldeia  na ilha de Rhodes, na Grécia,num tempo em que os gregos eram dominados pelos turcos otomanos.A aldeia se chamava Archangelos e por estarem muito e muito tempo sob domínio de turcos muçulmanos,os costumes,as palavras e a cultura ficou parecia.Os gregos só não abriam mão de seu idioma e de sua religião.Eram todos cristãos ortodoxos.
Risos alegres,novamente a pergunta sobre o que isso queria dizer em grego,outra vez a tradução mais ou menos, do" fio do novelo que se emaranhava ao vento,que era preciso dar um tranco na roca,para começcar a girar e para que a história pudesse se desenrolar.."
De historinha em historinha os netos iam decorando a cantilena que funcionava como o "era uma vez".


Vocês querem saber porque eu digo sempre que vocês são um pouco gregos também?Porque o pai de vovó Eleni era filho de um grego de Archangelos com uma índia de Mato Grosso.E sabem como foi que essa mistura pôde acontecer?É uma longa história! Posso contar se não tiver que ser num dia só.De acordo?
Diante do "sim" bem alto e esperançoso de que pudesse ser tudo naquela hora,vovó começou:
O que eu vou contar a vocês,meu pai seu papú Mihali me contou,contou para todos os filhos,assim como eu conto para vocês hoje.Minha avó(sua tataravó)também contava e eu nunca esqueci para poder contar a vocês.E quem contou tudo o que se passara antes de seu papú nascer a ele foi o papú dele também...
Ele gostava desse papú como vocês gostam desta vovó.Dizia sempre que ele era muito elegante,forte, corajoso.Adorava cavalos e era muito admirado por todas as pessoas da aldeia quando cavalgava muito imponente.Parecia um comandante na guerra.
Ele era tão garboso,que quando alguém estava bem bonito era comparado a ele:"você está parecendo o Mihali diziam.Sim...ele tinha o mesmo nome do avô!Os dois eram Mihali,avô e neto.
De seu avô o Mihali neto,escutava histórias como vocês escutam as que eu conto...todas de verdade.Ele dizia que no passado,nos tempos antigos na Grécia,as ruas eram feitas assim bem como labirintos que são até hoje bem fáceis das pessoas se perderem,de propósito para que os piratas que invadiam a ilha e o lugarejo,não conseguissem penetrar com facilidade e para que os habitantes os despistassem com facilidade,Entravam piratas sempre naqueles tempos,para saquear os povos pacíficos que só pensavam e trabalhar e viver com suas famílias.
Eram tempos muito difíceis...muito mesmo,mais até do que quando ainda faziam parte do Império Otomano,pois desde meados do século XIX,os guerrilheiros gregos haviam expulsado os turcos e ficado independentes;foi quando surgiu a Grécia livre,mas pobre.Tempos difíceis porque logo vieram os italianos e dominaram a Grécia.
"Vovó!E agora? disse Pedro com uma carinha intrigada...para quem vamos torcer?Nós somos um pouco gregos porque seu pai era filho de grego né?mas nosso nono é filho de italiano então nós somos um pouco italianos também?"
Eita...agora você me pegou...mas não tem problema...vocês não terão que torcer para um ou para o outro...sabem porque?Porque os gregos se deram muitíssimo bem com os italianos e até ficaram contentes quando tiveram que conviver na mesma ilha.Até as melhores escolas e hospitais foram eles que construiram e deixaram os gregos aprenderem e se tratarem,coisa que no tempo dos turcos não acontecia.
Antes do italianos chegarem, os gregos nem tinham muito trabalho na ilha para eles...tudo era só na Turquia e para lá eles tinham que ir todo dia para trabalhar,atravessando de barco da ilha para o continente,numa região que chamavam de Ásia Menor.

Não era trabalho fácil não...trabalhavam em fornos de cal,faziam pedras  calcáreas virarem cal,num processo exaustivo e extenuante;sendo que mesmo menores de idade,gente quase da sua idade Tomás,assim com 12,13 aninhos já ia trabalhar com os outros homens da aldeia.Eram fornos mesmo,uma espécie de forno feito nas montanhas,de pedras,que queimava e não podia apagar,tinham que ficar alimentando ali colocando pedras e retirando a cal...não tinha como não ficar em contato com aquela caloria horrenda.Muito difícil,mas era o que tinha para ganharem algum dinheiro.
Seu avô ficou muito feliz com a expulsão  definitiva dos turcos da ilha! Foi com imensa alegria que ouviu o amigo Stelios contando como os italianos chegaram e perguntaram-lhe onde estavam os turcos e ele pessoalmente,dissera onde viviam os terríveis inimigos dos gregos.
Porém,era uma época que  faltava trabalho.Não havia trabalho  para todos os jovens e a aldeia começava a sentir enormes dificuldades para sobreviver.Isso preocupava o avô Mihali que diante da incerteza, reuniu os filhos Doni, Costa e Nico  e tentava adivinhar o futuro de todos eles.
"Nicolau,meu filho,traga-me uma garrafa de ouzo“,pediu ao filho caçula.
O garoto,então com cerca de 12 anos,levantou-se rapidamente e correu ate o pequeno cafenio,a poucos metros de onde estavam.O pai,sentado numa cadeira diante da porta da casa tinha  o semblante carregado e uma expressão grave;era uma figura austera e forte em suas bombachas.Ele vestia camisa do tipo turco,sem colarinho e envolvendo a cintura trazia faixas que lhe conferiam a aparência elegante com que ficou conhecido.Pesadas  botas nos pés, completavam a imagem desse homem ao mesmo tempo doce e enérgico que viria a ser o avo de meu pai.Imagino seu olhar pensativo ,de azul faiscante buscando os dos filhos a sua volta  ,fixando-se neles e pressentindo duras provas.Sabia que dias difíceis viriam.Os antigos sabiam sentir e pressentir!
Cofiando as ponta do longo bigode ,torcia-as levemente para cima  e fechava o sobrolho em silencio.
            Em pouco tempo  o pequeno Nico retornou com a garrafa de ouzo e  começaram a conversar.Dentro da casa,a mãe e as irmãs Crisante e Charistula ocupavam-se com a massa   e os pães. 
Finalmente, depois de uma boa dose de ouzo, disse em voz forte e grave:

            “Filhos, a aldeia toda se ressente,e vocês já devem ter percebido também,as dificuldades pelas quais passamos e ainda havemos de passar.São todos homens feitos já,menos você Nicolau.Podem entender ,que para nós que vivemos do trabalho nos fornos de cal e de pequenos serviços na Asia, está ficando difícil demais.Aqui na ilha não há trabalho.Pessoas como nós que não possuem terra,sempre tivemos que enfrentar mais dificuldades.Nunca foi fácil…tivemos que  ir para a Ásia, no meio dos turcos, trabalhar para eles,enfrentando a dura travessia em pequenos barcos, longe da família, por meses e meses,num trabalho quase escravo para termos de onde tirar nosso sustento.Mas,agora,sob o domínio dos italianos,não podemos mais "trabalhar na Ásia Menor. O que faremos? Como vamos viver?”  
"Verdade vó,como iriam viver?"Conta logo!
    

Amanhã,quando vocês tiverem terminado suas tarefas,bem direitinho como fizeram hoje,a vovó Eleni,conta para vocês o que foi que se decidiu naquela reunião.Enquanto isso,deixemos os antepassados tomando seu ouzo e pensando nas soluções que encontrariam e vamos dormir que vovó está com muito sono!
" Ah...vó...bem agora?"
Sim coração,bem agora,para que vocês durmam interessandos e continuem sempre interessados nas histórias dça do passado.
    Entoaram juntos "morreu vitória,acabou a história e quem quiser que conte outra!
Beijos e bançãos e o kalinirta que já sabiam e dormiram esperando o "clostini closti! entoado pela avó,no dia seguinte.

Junho de 202-Helena Zarvos


































segunda-feira, 22 de junho de 2020

Cotchini Closti




 

 

 

 

Cotchini closti!

 

   

 

 

 Vovó Eleni sentou-se na cadeira confortável,chamou Tomás e Pedro com a cantilena que ouvia na infância  e dois pares de olhos infantis arregalados,repetiram com ela”cotchini closti demeni,stin anemi tilimeni,dostu clotso na girici,paramiti narhinice”

Nenhum deles sabia mais do que o significa de “paramiti”(historinhas),nem era fácil para a avó, traduzir algo que em grego fazia som de frases rimadas e sincopadas  e que a rigor era uma metáfora singela: “linha vermelha ,emaranhada ao  vento,damos  um tranco para desembaraçar, para que também  a história possa se desenrolar”. Para eles bastava o som,o sentido e a certeza de que a avó ia contar uma historinha daquelas de antigamente:

“Tchino ton geron tchino ta zamanha”... ena vassileu...”

Sim naquele tempo e naquele passado havia um rei... e daqui ela continuava em português,porque seus netos paraibanos não acompanhariam mais nada dito em grego.

A bem da verdade, nem a avó saberia muito mais.Seu grego,ouvido em toda a infância,falado por avós e tios,era bom o suficiente para entender quase tudo,mas falava apenas para ser entendida e provocar algum riso.Mas ela gostava muito e nesse tempo de “pandemônio” voltar às próprias raízes fazia mais do que bem.Era vital!

Com as plantas já aprendera que no inverno a seiva volta para as raízes e lá se protege.Voltava para a parte grega de suas raízes e continuava sendo a eterna avó.

Naquele tempo,naquele passado,havia um rei poderoso.Sua filha era uma princesinha  de onze anos,como você Tomás e como eu se chamava Eleni.Era  muito inquieta e curiosa.Seu pai,o rei  Mihail  era amado e temido ao mesmo tempo.Seu temperamento forte e instável intimidava um pouco aos filhos e a esposa.Contudo,comunicava a todos eles muita segurança e certeza de que nada,nem ninguém poderia fazer mal a quem quer que fosse daquela casa real.

         A mãe,criatura bondosa,eclipsada pela força do pai,cuidava para que nenhuma regra dentro do palácio fosse quebrada e assim agradar seu marido e senhor,a quem amava e temia a um só tempo.

         A primogênita, princesinha Eleni,sem ser propriamente bela, exibia  a graça e a vivacidade de uma gazela dos campos da  região  e sua extrema agilidade mental, fazia dela a principal inquisidora dentro do palácio. Passava a maior parte do tempo perguntando e perguntando sobre cada astro no céu, cada planta que encontrava desconhecida, sobre o tempo e o espaço,sobre as dimensões desses conceitos e de cada fenômeno que a natureza apresentava diante de seus sentidos .O alvo predileto de suas investidas intelectuais era o preceptor Ulysses ainda jovem  mas já muito sábio ,que lhe dizia”Patria cara,carior libertas,veritas caríssima”.

Com ele,aprendia  os nomes das estrelas, o movimento da Lua, descobria segredos da vida no mar , plantas medicinais, conhecia o significado de palavras exóticas de idiomas diversos.

         Com a avó aprendia , em lindas histórias dos tempos remotos as origens de sua família e com o mestre,Ulysses, o conteúdo imemorial do pensamento humano.

         A caminho da casinha onde viviam seus avós,Eleni sempre desfrutava com imenso prazer, do ar impregnado dos odores de folhas e troncos umedecidos e que rescendiam a resinas e lhe proporcionavam grande bem-estar. Sentia-se parte integrante da natureza, quase como uma espécie vegetal e sempre que caminhava pela trilha no meio da floresta, olhava cuidadosa e atentamente ,dialogando até mesmo com as gotas de orvalho.Todas lhe diziam coisas...ela ouvia e aprendia.

Certo dia, percebeu atrás de um tronco de frondoso eucalipto da Índia, cujo odor  lhe agradava de modo especial, um movimento estranho e rápido, como de alguém que fugisse da possibilidade de ser visto.Assustou-se e experimentou a sensação de urgência de sair dali, mas sua grande curiosidade a fez respirar fundo,recuar, acalmar-se e  e investigar.Esperta e cautelosa, começou a choramingar de mentirinha, ,dizendo-se perdida na floresta, imaginando que o que quer que fosse que ali estivesse, renunciaria a qualquer intenção de malignidade , se esta existisse ,diante de uma menininha indefesa...Sua suposição estava certíssima. Em poucos minutos, surgiu por detrás do tronco um estranha figura, pequena , de um ser que parecia uma anão,vestido como o bobo da corte, mas com fisionomia bem mais carregada de seriedade e lucidez...podia ser um duende...era um duende! Seu olhar a impressionou de imediato, vigoroso, penetrante e direto.Confiáveis ! Eleni relaxou e abandonou a postura estudada de menininha perdida e assustada. Percebeu que aquele ser sabia mais, muito mais do que todos os que sabiam muito.

          _Quem é você, perguntou o duende?

         __Eu sou Eleni, a filha do rei Mihail.

         __Não lhe perguntei o nome e nem filha de quem você é esperta garotinha.Perguntei-lhe quem você é?

         __Bem, então...bem, então eu sou uma menina de12 anos.

         __Outra vez! Não lhe perguntei sobre o que é evidente como ser uma menina e nem sobre sua idade... repito que estou querendo saber apenas quem é você e nenhuma outra circunstância especial sobre sua pessoa.

         ­­_Então, nem adianta dizer-lhe que sou neta de quem sou, filha de quem sou, meu nome e posição neste reino...nada disso lhe satisfará ?

         _Satisfaz a você, perguntou o duende?

         _Bem, tem bastado...até hoje, penso que sou quem penso que sou...não por imaginar, mas por ver comprovados todos os dados que lhe forneci sobre mim...Essa sou eu...

         _Há...HÁ...HÁ... o duende riu-se gostosamente da resposta da menina...que graça! Imagine se cada roupa que uma pessoa veste for usada  para identificá-la...será engraçado...Você é tudo isso também,mas poderia ter outro nome e ser você...ou não?

         _Então, gaguejou a menina, quem sou eu?

         _Parabéns  festejou o duende que em seguida disse seu nome: Chamam-me Nuno e eu simpatizo com esse sinal  que me ajuda a ser encontrado pelas pessoas...mas meu encontro comigo mesmo faz outro caminho.

         _Qual é esse caminho , perguntou a perguntadora...

         _Ah! Muito bem...você está progredindo. Esse caminho começa com a pergunta que você acabou de fazer: Quem sou eu?

         _E a resposta? quis saber a menina

         _A resposta virá sempre que você  fizer perguntas bem feitas. Sobre você , pergunte tudo o que puder a  si mesma e a quantas pessoas no mundo puder e terá a resposta, e quando ela vier, você saberá.Lembre-se do que lhe disse o seu preceptor:”Pátria cara, carior libertas, veritas caríssima” ....pergunte...pergunte...pergunte....e olhe sempre no fundo dos olhos , ouça muitas vezes a mesma coisa, fale pouco e bem ,não perca o contato com o cheiro de terra molhada e nem tire os pés do chão...Use a pele ...Você saberá ...Deus a abençõe e proteja de tudo o que ainda não sabe, pois na ignorância estão os perigos que mais a ameaçarão...você somente verá o que sabe e conhece e enquanto isso...até mesmo sua sombra é sua inimiga....Lembre-se de tudo o que lhe disse  e acredite.

         Dizendo isso, o duende desapareceu tão rápido como havia aparecido e em seu lugar, deixou uma marca , que seguramente ninguém mais veria.Eleni veria sempre...ela vira o duende e vira a marca se formar em seu lugar.Percebeu  a veracidade do que ele dissera:você só pode ver o que conhece.

O tempo passou,Eleni cresceu e muita coisa ruim aconteceu.Foram anos de guerras,de ganância desmedida,de falta de amor e de solidariedade.O reino de seu pai desapareceu em meio a invasões e ela sobreviveu e passou a viver no Brasil, sem a pompa do antigo mundo conhecido.Via o que nunca vira:carências e desigualdades que a perturbavam mais e mais.Qual é a fonte disso ?Para que vivemos?Onde está o tesouro que sinto que deve existir,para além daqueles tesouros acumulados por meu pai,que já não existem?

_Em meio a tantas dúvidas ,certo dia ,sentiu novamente o aroma do eucalipto da India, percebeu um movimento entre as folhas e lá estava ele:Nuno,o duende voltara.Lembrou-se de seu primeiro encontro,quando ainda achava que sabia tudo sobre si e sobre o mundo conhecido.Sentiu alegria mas percebeu que ele não era mais tão brincalhão.Ela não estranhou o encontro,pois há algum tempo vinha desejando muito isso.

Ele a olhou sério sem nada dizer.Depois fez algumas piruetas e  perguntou:

_Como está princesinha,filha do rei Mihail?

Sem responder a jovem disparou:

_O egoísmo...o que é?Onde se esconde?

_Essa não é a pergunta adequada.Se fosse possível saber onde se esconde, lá o procuraríamos.

_Sei,disse ela, que o egoísmo se metamorfoseia.é um camaleão sagaz e se faz presente em quase todos os projetos de vida.Frustra a  busca de felicidade e de realização da alma.Quero saber onde devo procurar para identificar e  eliminar ou ao menos para caminhar sem me sujeitar aos seus ditames.Já aprendi que se fantasia até de caridade por vezes.

_Humm...sei que tudo o que mais quer é ser parte do grande evento cósmico,não é ?

_A propósito,você que gosta de raízes,já experimentou voltar-se para suas raízes indígenas?

“Você sabe delas,perguntou a princesa...pensei que soubesse só do lado grego de minha ascendência!”

O duende deu uma gargalhada...”sei tudo!Sei que um antepassado veio para o Brasil,casou-se com uma bugrinha matogrossense que teve três filhos e morreu muito jovem.Seu pai,o rei Mihail era o segundogênito.Essa avó está viva no seu sangue e vai te dar as respostas.Se quiser saber o que ela escreveria para você se pudesse,leia a” Carta do chefe Seattle”.Um presidente de uma nação poderosa quis comprar as terras da tribo da qual ele era o cacique e verá respostas sobre o que é a Vida e quem você de verdade.

Eleni correu para prateleiras nunca antes visitadas,encontrou a carta.Leu e encontrou todas as respostas.Pedro,Tomás.um dia vocês a lerão também...por agora vou apenas repetir a vocês as partes das quais eu me lembro porque também fiz questão do conhecê-la.

Vejam por exemplo estas:

“Se não possuis o frescor do ar ou o brilho da água,como podeis querer comprá-los?”

“Somos parte da terra e ela é parte de nós”

“O ar é precioso para o homem vermelho,pois dele todos se alimentam.”

“De uma coisa temos certeza, a terra não pertence ao homem branco,o homem branco pertence à terra”

“O homem não tece a teia da vida;antes,ele é um de seus fios..o que quer que faça a essa teia fará a si próprio”

“Talvez,apesar de tudo sejamos todos irmãos.Nós o veremos.De uma coisa,sabemos-e que talvez o homem branco venha a descobrir um dia-nosso Deus é o mesmo Deus.Podeis pensar hoje que somente vós O possuis,como desejais possuir a terra,mas não podeis.Ele é o deus do homem e Sua compaixão é igual tanto para o homem branco quanto para o homem vermelho.Esta terra é querida Dele e ofender a terra é insultar o seu Criador.Os brancos também passarão;talvez mais cedo-do que todas as outras tribos.Contaminai a vossa cama e vos sufocareis numa noite,no meio de vossos próprios excrementos.”

“Onde está a águia?desapareceu.O fim do viver e o início do sobreviver!”

Esse encontro com as raízes indígenas foi definitivo para Eleni.Quando quis agradecer,viu que o duende se fora.

Ao compreender tudo,a princesa se viu com muito mais idade..percebeu que envelhecera,que se tornara sábia e serenamente feliz,que estava em completa harmonia com a natureza e que não havia princesa,nem” eu” nenhum.Sempre fomos “nós”Não existe eu...só existe nós.

Entendendo que agora a vovó ia dizer”:acabou-se a história,morreu vitória,quem quiser que conte outra”...os dois a abraçaram e ela teve certeza de que deveria começar uma segunda “paramiti”

Cotchini closti demeni...

 

 

 

 

Cotchini closti!

 

 (Helena Zarvos-Lins(S.P)    

 

 

 Vovó Eleni sentou-se na cadeira confortável,chamou Tomás e Pedro com a cantilena que ouvia na infância  e dois pares de olhos infantis arregalados,repetiram com ela”cotchini closti demeni,stin anemi tilimeni,dostu clotso na girici,paramiti narhinice”

Nenhum deles sabia mais do que o significa de “paramiti”(historinhas),nem era fácil para a avó, traduzir algo que em grego fazia som de frases rimadas e sincopadas  e que a rigor era uma metáfora singela: “linha vermelha ,emaranhada ao  vento,damos  um tranco para desembaraçar, para que também  a história possa se desenrolar”. Para eles bastava o som,o sentido e a certeza de que a avó ia contar uma historinha daquelas de antigamente:

“Tchino ton geron tchino ta zamanha”... ena vassileu...”

Sim naquele tempo e naquele passado havia um rei... e daqui ela continuava em português,porque seus netos paraibanos não acompanhariam mais nada dito em grego.

A bem da verdade, nem a avó saberia muito mais.Seu grego,ouvido em toda a infância,falado por avós e tios,era bom o suficiente para entender quase tudo,mas falava apenas para ser entendida e provocar algum riso.Mas ela gostava muito e nesse tempo de “pandemônio” voltar às próprias raízes fazia mais do que bem.Era vital!

Com as plantas já aprendera que no inverno a seiva volta para as raízes e lá se protege.Voltava para a parte grega de suas raízes e continuava sendo a eterna avó.

Naquele tempo,naquele passado,havia um rei poderoso.Sua filha era uma princesinha  de onze anos,como você Tomás e como eu se chamava Eleni.Era  muito inquieta e curiosa.Seu pai,o rei  Mihail  era amado e temido ao mesmo tempo.Seu temperamento forte e instável intimidava um pouco aos filhos e a esposa.Contudo,comunicava a todos eles muita segurança e certeza de que nada,nem ninguém poderia fazer mal a quem quer que fosse daquela casa real.

         A mãe,criatura bondosa,eclipsada pela força do pai,cuidava para que nenhuma regra dentro do palácio fosse quebrada e assim agradar seu marido e senhor,a quem amava e temia a um só tempo.

         A primogênita, princesinha Eleni,sem ser propriamente bela, exibia  a graça e a vivacidade de uma gazela dos campos da  região  e sua extrema agilidade mental, fazia dela a principal inquisidora dentro do palácio. Passava a maior parte do tempo perguntando e perguntando sobre cada astro no céu, cada planta que encontrava desconhecida, sobre o tempo e o espaço,sobre as dimensões desses conceitos e de cada fenômeno que a natureza apresentava diante de seus sentidos .O alvo predileto de suas investidas intelectuais era o preceptor Ulysses ainda jovem  mas já muito sábio ,que lhe dizia”Patria cara,carior libertas,veritas caríssima”.

Com ele,aprendia  os nomes das estrelas, o movimento da Lua, descobria segredos da vida no mar , plantas medicinais, conhecia o significado de palavras exóticas de idiomas diversos.

         Com a avó aprendia , em lindas histórias dos tempos remotos as origens de sua família e com o mestre,Ulysses, o conteúdo imemorial do pensamento humano.

         A caminho da casinha onde viviam seus avós,Eleni sempre desfrutava com imenso prazer, do ar impregnado dos odores de folhas e troncos umedecidos e que rescendiam a resinas e lhe proporcionavam grande bem-estar. Sentia-se parte integrante da natureza, quase como uma espécie vegetal e sempre que caminhava pela trilha no meio da floresta, olhava cuidadosa e atentamente ,dialogando até mesmo com as gotas de orvalho.Todas lhe diziam coisas...ela ouvia e aprendia.

Certo dia, percebeu atrás de um tronco de frondoso eucalipto da Índia, cujo odor  lhe agradava de modo especial, um movimento estranho e rápido, como de alguém que fugisse da possibilidade de ser visto.Assustou-se e experimentou a sensação de urgência de sair dali, mas sua grande curiosidade a fez respirar fundo,recuar, acalmar-se e  e investigar.Esperta e cautelosa, começou a choramingar de mentirinha, ,dizendo-se perdida na floresta, imaginando que o que quer que fosse que ali estivesse, renunciaria a qualquer intenção de malignidade , se esta existisse ,diante de uma menininha indefesa...Sua suposição estava certíssima. Em poucos minutos, surgiu por detrás do tronco um estranha figura, pequena , de um ser que parecia uma anão,vestido como o bobo da corte, mas com fisionomia bem mais carregada de seriedade e lucidez...podia ser um duende...era um duende! Seu olhar a impressionou de imediato, vigoroso, penetrante e direto.Confiáveis ! Eleni relaxou e abandonou a postura estudada de menininha perdida e assustada. Percebeu que aquele ser sabia mais, muito mais do que todos os que sabiam muito.

          _Quem é você, perguntou o duende?

         __Eu sou Eleni, a filha do rei Mihail.

         __Não lhe perguntei o nome e nem filha de quem você é esperta garotinha.Perguntei-lhe quem você é?

         __Bem, então...bem, então eu sou uma menina de12 anos.

         __Outra vez! Não lhe perguntei sobre o que é evidente como ser uma menina e nem sobre sua idade... repito que estou querendo saber apenas quem é você e nenhuma outra circunstância especial sobre sua pessoa.

         ­­_Então, nem adianta dizer-lhe que sou neta de quem sou, filha de quem sou, meu nome e posição neste reino...nada disso lhe satisfará ?

         _Satisfaz a você, perguntou o duende?

         _Bem, tem bastado...até hoje, penso que sou quem penso que sou...não por imaginar, mas por ver comprovados todos os dados que lhe forneci sobre mim...Essa sou eu...

         _Há...HÁ...HÁ... o duende riu-se gostosamente da resposta da menina...que graça! Imagine se cada roupa que uma pessoa veste for usada  para identificá-la...será engraçado...Você é tudo isso também,mas poderia ter outro nome e ser você...ou não?

         _Então, gaguejou a menina, quem sou eu?

         _Parabéns  festejou o duende que em seguida disse seu nome: Chamam-me Nuno e eu simpatizo com esse sinal  que me ajuda a ser encontrado pelas pessoas...mas meu encontro comigo mesmo faz outro caminho.

         _Qual é esse caminho , perguntou a perguntadora...

         _Ah! Muito bem...você está progredindo. Esse caminho começa com a pergunta que você acabou de fazer: Quem sou eu?

         _E a resposta? quis saber a menina

         _A resposta virá sempre que você  fizer perguntas bem feitas. Sobre você , pergunte tudo o que puder a  si mesma e a quantas pessoas no mundo puder e terá a resposta, e quando ela vier, você saberá.Lembre-se do que lhe disse o seu preceptor:”Pátria cara, carior libertas, veritas caríssima” ....pergunte...pergunte...pergunte....e olhe sempre no fundo dos olhos , ouça muitas vezes a mesma coisa, fale pouco e bem ,não perca o contato com o cheiro de terra molhada e nem tire os pés do chão...Use a pele ...Você saberá ...Deus a abençõe e proteja de tudo o que ainda não sabe, pois na ignorância estão os perigos que mais a ameaçarão...você somente verá o que sabe e conhece e enquanto isso...até mesmo sua sombra é sua inimiga....Lembre-se de tudo o que lhe disse  e acredite.

         Dizendo isso, o duende desapareceu tão rápido como havia aparecido e em seu lugar, deixou uma marca , que seguramente ninguém mais veria.Eleni veria sempre...ela vira o duende e vira a marca se formar em seu lugar.Percebeu  a veracidade do que ele dissera:você só pode ver o que conhece.

O tempo passou,Eleni cresceu e muita coisa ruim aconteceu.Foram anos de guerras,de ganância desmedida,de falta de amor e de solidariedade.O reino de seu pai desapareceu em meio a invasões e ela sobreviveu e passou a viver no Brasil, sem a pompa do antigo mundo conhecido.Via o que nunca vira:carências e desigualdades que a perturbavam mais e mais.Qual é a fonte disso ?Para que vivemos?Onde está o tesouro que sinto que deve existir,para além daqueles tesouros acumulados por meu pai,que já não existem?

_Em meio a tantas dúvidas ,certo dia ,sentiu novamente o aroma do eucalipto da India, percebeu um movimento entre as folhas e lá estava ele:Nuno,o duende voltara.Lembrou-se de seu primeiro encontro,quando ainda achava que sabia tudo sobre si e sobre o mundo conhecido.Sentiu alegria mas percebeu que ele não era mais tão brincalhão.Ela não estranhou o encontro,pois há algum tempo vinha desejando muito isso.

Ele a olhou sério sem nada dizer.Depois fez algumas piruetas e  perguntou:

_Como está princesinha,filha do rei Mihail?

Sem responder a jovem disparou:

_O egoísmo...o que é?Onde se esconde?

_Essa não é a pergunta adequada.Se fosse possível saber onde se esconde, lá o procuraríamos.

_Sei,disse ela, que o egoísmo se metamorfoseia.é um camaleão sagaz e se faz presente em quase todos os projetos de vida.Frustra a  busca de felicidade e de realização da alma.Quero saber onde devo procurar para identificar e  eliminar ou ao menos para caminhar sem me sujeitar aos seus ditames.Já aprendi que se fantasia até de caridade por vezes.

_Humm...sei que tudo o que mais quer é ser parte do grande evento cósmico,não é ?

_A propósito,você que gosta de raízes,já experimentou voltar-se para suas raízes indígenas?

“Você sabe delas,perguntou a princesa...pensei que soubesse só do lado grego de minha ascendência!”

O duende deu uma gargalhada...”sei tudo!Sei que um antepassado veio para o Brasil,casou-se com uma bugrinha matogrossense que teve três filhos e morreu muito jovem.Seu pai,o rei Mihail era o segundogênito.Essa avó está viva no seu sangue e vai te dar as respostas.Se quiser saber o que ela escreveria para você se pudesse,leia a” Carta do chefe Seattle”.Um presidente de uma nação poderosa quis comprar as terras da tribo da qual ele era o cacique e verá respostas sobre o que é a Vida e quem você de verdade.

Eleni correu para prateleiras nunca antes visitadas,encontrou a carta.Leu e encontrou todas as respostas.Pedro,Tomás.um dia vocês a lerão também...por agora vou apenas repetir a vocês as partes das quais eu me lembro porque também fiz questão do conhecê-la.

Vejam por exemplo estas:

“Se não possuis o frescor do ar ou o brilho da água,como podeis querer comprá-los?”

“Somos parte da terra e ela é parte de nós”

“O ar é precioso para o homem vermelho,pois dele todos se alimentam.”

“De uma coisa temos certeza, a terra não pertence ao homem branco,o homem branco pertence à terra”

“O homem não tece a teia da vida;antes,ele é um de seus fios..o que quer que faça a essa teia fará a si próprio”

“Talvez,apesar de tudo sejamos todos irmãos.Nós o veremos.De uma coisa,sabemos-e que talvez o homem branco venha a descobrir um dia-nosso Deus é o mesmo Deus.Podeis pensar hoje que somente vós O possuis,como desejais possuir a terra,mas não podeis.Ele é o deus do homem e Sua compaixão é igual tanto para o homem branco quanto para o homem vermelho.Esta terra é querida Dele e ofender a terra é insultar o seu Criador.Os brancos também passarão;talvez mais cedo-do que todas as outras tribos.Contaminai a vossa cama e vos sufocareis numa noite,no meio de vossos próprios excrementos.”

“Onde está a águia?desapareceu.O fim do viver e o início do sobreviver!”

Esse encontro com as raízes indígenas foi definitivo para Eleni.Quando quis agradecer,viu que o duende se fora.

Ao compreender tudo,a princesa se viu com muito mais idade..percebeu que envelhecera,que se tornara sábia e serenamente feliz,que estava em completa harmonia com a natureza e que não havia princesa,nem” eu” nenhum.Sempre fomos “nós”Não existe eu...só existe nós.

Entendendo que agora a vovó ia dizer”:acabou-se a história,morreu vitória,quem quiser que conte outra”...os dois a abraçaram e ela teve certeza de que deveria começar uma segunda “paramiti”

Cotchini closti demeni...

 

 

 

 

Cotchini closti!

 

 (Helena Zarvos-Lins(S.P)    

 

 

 Vovó Eleni sentou-se na cadeira confortável,chamou Tomás e Pedro com a cantilena que ouvia na infância  e dois pares de olhos infantis arregalados,repetiram com ela”cotchini closti demeni,stin anemi tilimeni,dostu clotso na girici,paramiti narhinice”

Nenhum deles sabia mais do que o significa de “paramiti”(historinhas),nem era fácil para a avó, traduzir algo que em grego fazia som de frases rimadas e sincopadas  e que a rigor era uma metáfora singela: “linha vermelha ,emaranhada ao  vento,damos  um tranco para desembaraçar, para que também  a história possa se desenrolar”. Para eles bastava o som,o sentido e a certeza de que a avó ia contar uma historinha daquelas de antigamente:

“Tchino ton geron tchino ta zamanha”... ena vassileu...”

Sim naquele tempo e naquele passado havia um rei... e daqui ela continuava em português,porque seus netos paraibanos não acompanhariam mais nada dito em grego.

A bem da verdade, nem a avó saberia muito mais.Seu grego,ouvido em toda a infância,falado por avós e tios,era bom o suficiente para entender quase tudo,mas falava apenas para ser entendida e provocar algum riso.Mas ela gostava muito e nesse tempo de “pandemônio” voltar às próprias raízes fazia mais do que bem.Era vital!

Com as plantas já aprendera que no inverno a seiva volta para as raízes e lá se protege.Voltava para a parte grega de suas raízes e continuava sendo a eterna avó.

Naquele tempo,naquele passado,havia um rei poderoso.Sua filha era uma princesinha  de onze anos,como você Tomás e como eu se chamava Eleni.Era  muito inquieta e curiosa.Seu pai,o rei  Mihail  era amado e temido ao mesmo tempo.Seu temperamento forte e instável intimidava um pouco aos filhos e a esposa.Contudo,comunicava a todos eles muita segurança e certeza de que nada,nem ninguém poderia fazer mal a quem quer que fosse daquela casa real.

         A mãe,criatura bondosa,eclipsada pela força do pai,cuidava para que nenhuma regra dentro do palácio fosse quebrada e assim agradar seu marido e senhor,a quem amava e temia a um só tempo.

         A primogênita, princesinha Eleni,sem ser propriamente bela, exibia  a graça e a vivacidade de uma gazela dos campos da  região  e sua extrema agilidade mental, fazia dela a principal inquisidora dentro do palácio. Passava a maior parte do tempo perguntando e perguntando sobre cada astro no céu, cada planta que encontrava desconhecida, sobre o tempo e o espaço,sobre as dimensões desses conceitos e de cada fenômeno que a natureza apresentava diante de seus sentidos .O alvo predileto de suas investidas intelectuais era o preceptor Ulysses ainda jovem  mas já muito sábio ,que lhe dizia”Patria cara,carior libertas,veritas caríssima”.

Com ele,aprendia  os nomes das estrelas, o movimento da Lua, descobria segredos da vida no mar , plantas medicinais, conhecia o significado de palavras exóticas de idiomas diversos.

         Com a avó aprendia , em lindas histórias dos tempos remotos as origens de sua família e com o mestre,Ulysses, o conteúdo imemorial do pensamento humano.

         A caminho da casinha onde viviam seus avós,Eleni sempre desfrutava com imenso prazer, do ar impregnado dos odores de folhas e troncos umedecidos e que rescendiam a resinas e lhe proporcionavam grande bem-estar. Sentia-se parte integrante da natureza, quase como uma espécie vegetal e sempre que caminhava pela trilha no meio da floresta, olhava cuidadosa e atentamente ,dialogando até mesmo com as gotas de orvalho.Todas lhe diziam coisas...ela ouvia e aprendia.

Certo dia, percebeu atrás de um tronco de frondoso eucalipto da Índia, cujo odor  lhe agradava de modo especial, um movimento estranho e rápido, como de alguém que fugisse da possibilidade de ser visto.Assustou-se e experimentou a sensação de urgência de sair dali, mas sua grande curiosidade a fez respirar fundo,recuar, acalmar-se e  e investigar.Esperta e cautelosa, começou a choramingar de mentirinha, ,dizendo-se perdida na floresta, imaginando que o que quer que fosse que ali estivesse, renunciaria a qualquer intenção de malignidade , se esta existisse ,diante de uma menininha indefesa...Sua suposição estava certíssima. Em poucos minutos, surgiu por detrás do tronco um estranha figura, pequena , de um ser que parecia uma anão,vestido como o bobo da corte, mas com fisionomia bem mais carregada de seriedade e lucidez...podia ser um duende...era um duende! Seu olhar a impressionou de imediato, vigoroso, penetrante e direto.Confiáveis ! Eleni relaxou e abandonou a postura estudada de menininha perdida e assustada. Percebeu que aquele ser sabia mais, muito mais do que todos os que sabiam muito.

          _Quem é você, perguntou o duende?

         __Eu sou Eleni, a filha do rei Mihail.

         __Não lhe perguntei o nome e nem filha de quem você é esperta garotinha.Perguntei-lhe quem você é?

         __Bem, então...bem, então eu sou uma menina de12 anos.

         __Outra vez! Não lhe perguntei sobre o que é evidente como ser uma menina e nem sobre sua idade... repito que estou querendo saber apenas quem é você e nenhuma outra circunstância especial sobre sua pessoa.

         ­­_Então, nem adianta dizer-lhe que sou neta de quem sou, filha de quem sou, meu nome e posição neste reino...nada disso lhe satisfará ?

         _Satisfaz a você, perguntou o duende?

         _Bem, tem bastado...até hoje, penso que sou quem penso que sou...não por imaginar, mas por ver comprovados todos os dados que lhe forneci sobre mim...Essa sou eu...

         _Há...HÁ...HÁ... o duende riu-se gostosamente da resposta da menina...que graça! Imagine se cada roupa que uma pessoa veste for usada  para identificá-la...será engraçado...Você é tudo isso também,mas poderia ter outro nome e ser você...ou não?

         _Então, gaguejou a menina, quem sou eu?

         _Parabéns  festejou o duende que em seguida disse seu nome: Chamam-me Nuno e eu simpatizo com esse sinal  que me ajuda a ser encontrado pelas pessoas...mas meu encontro comigo mesmo faz outro caminho.

         _Qual é esse caminho , perguntou a perguntadora...

         _Ah! Muito bem...você está progredindo. Esse caminho começa com a pergunta que você acabou de fazer: Quem sou eu?

         _E a resposta? quis saber a menina

         _A resposta virá sempre que você  fizer perguntas bem feitas. Sobre você , pergunte tudo o que puder a  si mesma e a quantas pessoas no mundo puder e terá a resposta, e quando ela vier, você saberá.Lembre-se do que lhe disse o seu preceptor:”Pátria cara, carior libertas, veritas caríssima” ....pergunte...pergunte...pergunte....e olhe sempre no fundo dos olhos , ouça muitas vezes a mesma coisa, fale pouco e bem ,não perca o contato com o cheiro de terra molhada e nem tire os pés do chão...Use a pele ...Você saberá ...Deus a abençõe e proteja de tudo o que ainda não sabe, pois na ignorância estão os perigos que mais a ameaçarão...você somente verá o que sabe e conhece e enquanto isso...até mesmo sua sombra é sua inimiga....Lembre-se de tudo o que lhe disse  e acredite.

         Dizendo isso, o duende desapareceu tão rápido como havia aparecido e em seu lugar, deixou uma marca , que seguramente ninguém mais veria.Eleni veria sempre...ela vira o duende e vira a marca se formar em seu lugar.Percebeu  a veracidade do que ele dissera:você só pode ver o que conhece.

O tempo passou,Eleni cresceu e muita coisa ruim aconteceu.Foram anos de guerras,de ganância desmedida,de falta de amor e de solidariedade.O reino de seu pai desapareceu em meio a invasões e ela sobreviveu e passou a viver no Brasil, sem a pompa do antigo mundo conhecido.Via o que nunca vira:carências e desigualdades que a perturbavam mais e mais.Qual é a fonte disso ?Para que vivemos?Onde está o tesouro que sinto que deve existir,para além daqueles tesouros acumulados por meu pai,que já não existem?

_Em meio a tantas dúvidas ,certo dia ,sentiu novamente o aroma do eucalipto da India, percebeu um movimento entre as folhas e lá estava ele:Nuno,o duende voltara.Lembrou-se de seu primeiro encontro,quando ainda achava que sabia tudo sobre si e sobre o mundo conhecido.Sentiu alegria mas percebeu que ele não era mais tão brincalhão.Ela não estranhou o encontro,pois há algum tempo vinha desejando muito isso.

Ele a olhou sério sem nada dizer.Depois fez algumas piruetas e  perguntou:

_Como está princesinha,filha do rei Mihail?

Sem responder a jovem disparou:

_O egoísmo...o que é?Onde se esconde?

_Essa não é a pergunta adequada.Se fosse possível saber onde se esconde, lá o procuraríamos.

_Sei,disse ela, que o egoísmo se metamorfoseia.é um camaleão sagaz e se faz presente em quase todos os projetos de vida.Frustra a  busca de felicidade e de realização da alma.Quero saber onde devo procurar para identificar e  eliminar ou ao menos para caminhar sem me sujeitar aos seus ditames.Já aprendi que se fantasia até de caridade por vezes.

_Humm...sei que tudo o que mais quer é ser parte do grande evento cósmico,não é ?

_A propósito,você que gosta de raízes,já experimentou voltar-se para suas raízes indígenas?

“Você sabe delas,perguntou a princesa...pensei que soubesse só do lado grego de minha ascendência!”

O duende deu uma gargalhada...”sei tudo!Sei que um antepassado veio para o Brasil,casou-se com uma bugrinha matogrossense que teve três filhos e morreu muito jovem.Seu pai,o rei Mihail era o segundogênito.Essa avó está viva no seu sangue e vai te dar as respostas.Se quiser saber o que ela escreveria para você se pudesse,leia a” Carta do chefe Seattle”.Um presidente de uma nação poderosa quis comprar as terras da tribo da qual ele era o cacique e verá respostas sobre o que é a Vida e quem você de verdade.

Eleni correu para prateleiras nunca antes visitadas,encontrou a carta.Leu e encontrou todas as respostas.Pedro,Tomás.um dia vocês a lerão também...por agora vou apenas repetir a vocês as partes das quais eu me lembro porque também fiz questão do conhecê-la.

Vejam por exemplo estas:

“Se não possuis o frescor do ar ou o brilho da água,como podeis querer comprá-los?”

“Somos parte da terra e ela é parte de nós”

“O ar é precioso para o homem vermelho,pois dele todos se alimentam.”

“De uma coisa temos certeza, a terra não pertence ao homem branco,o homem branco pertence à terra”

“O homem não tece a teia da vida;antes,ele é um de seus fios..o que quer que faça a essa teia fará a si próprio”

“Talvez,apesar de tudo sejamos todos irmãos.Nós o veremos.De uma coisa,sabemos-e que talvez o homem branco venha a descobrir um dia-nosso Deus é o mesmo Deus.Podeis pensar hoje que somente vós O possuis,como desejais possuir a terra,mas não podeis.Ele é o deus do homem e Sua compaixão é igual tanto para o homem branco quanto para o homem vermelho.Esta terra é querida Dele e ofender a terra é insultar o seu Criador.Os brancos também passarão;talvez mais cedo-do que todas as outras tribos.Contaminai a vossa cama e vos sufocareis numa noite,no meio de vossos próprios excrementos.”

“Onde está a águia?desapareceu.O fim do viver e o início do sobreviver!”

Esse encontro com as raízes indígenas foi definitivo para Eleni.Quando quis agradecer,viu que o duende se fora.

Ao compreender tudo,a princesa se viu com muito mais idade..percebeu que envelhecera,que se tornara sábia e serenamente feliz,que estava em completa harmonia com a natureza e que não havia princesa,nem” eu” nenhum.Sempre fomos “nós”Não existe eu...só existe nós.

Entendendo que agora a vovó ia dizer”:acabou-se a história,morreu vitória,quem quiser que conte outra”...os dois a abraçaram e ela teve certeza de que deveria começar uma segunda “paramiti”

Cotchini closti demeni...