domingo, 19 de julho de 2020

Resposta a Antonio Prata

Domingo pela manhã e essa agradável surpresa:um texto rico,belo e nobre.Escrito pelo filho de um caro amigo de infância.Ambos grandes escritores,o filho e o pai.Nunca conheci você pessoalmente Antonio,mas já gosto desde sua infância,do nome que lhe deram:o mesmo de nosso padroeiro,aqui em Lins,onde nasceu toda uma geração de amigos e amigas de seu pai,que de uberabense que era,acabou linense.
Como uma espécie de tia  portanto,sinto-me livre para lhe responder(sabendo que conhece é claro a resposta )a questão do final do artigo "Preto no Branco" publicada esta manhã pela Folha no UOL.
Com a mesma dor e pudor que sentiu ao precisar tergiversar para responder à pergunta de sua filhota,que queria saber "porque todas as babás são pretas",respondo a você tergiversando e apenas para compartilhar,pois você conhece caminhos e respostas melhores do que nós.
Sabe,Antonio,Lins era uma célula elitista,num Estado elitista por conta da produção de café,num Brasil exportador e porque tínhamos "vocação".Quanta coisa triste o mundo aprovou em nome de "vocação";um danado de um chamado que viria de alguma instância irrecusável!Vocação apontada por Darcy Ribeiro como você lembrou,por Eduardo Galeano que tentou pedir socorro para nossas veias abertas,por Jessé Souza,Chico Buarque,etc,etc...para ficar somente em alguns nomes e nem mencionar políticos ou líderes.
Se me permite,para não deixar de fazer justiça a um destes que me comove pela força e juventude:Guilherme Boulos!
Pois então...como dizia,a coisa vem de longe!
Seu pai se sensibilizou ,desde muito jovem,como tantos de nós.Se não me falha a memória,um dos primeiros textos que submeteu a uma leitura crítica falava de um carroceiro.
Lembro do meu pai lendo e aprovando.
Carroceiros não são altos,louros e brancos;assim como nenhuma das boas lembranças da molecada linense;o Torradim,o Paíca e outros monumentos de"fazer feliz".
O tempo passou,sou septuagenária como seu pai,Lins mudou no seu ritmo,à sua maneira,o Brasil patina a seu modo,mas o futuro tem nome,raça e já bate às portas dos mantenedores dessa antiga ordem estabelecida.
O "ancien régime"vai perecer também e as cores vão mudar.A vida é arco-íris e de cor nenhuma.Sua filhota poderá escrever outra história.
Deus o abençõe!
Saudações ao "Pratinha",nosso amigo de tantos anos!

Helena Zarvos.
19 de julho de 2020.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Fornos de cal

 "Cotchini closti closmeni,tin anemi tilimeni,dostu clostu na girici,paramiti narkinissi!Sentnado-se confortável entre seus netos,vovó Eleni ia repetindo a cantilena..."tino ton geron,tino ta zamanh"...

Era Uma vez,uma pequenina aldeia  na ilha de Rhodes, na Grécia,num tempo em que os gregos eram dominados pelos turcos otomanos.A aldeia se chamava Archangelos e por estarem muito e muito tempo sob domínio de turcos muçulmanos,os costumes,as palavras e a cultura ficou parecia.Os gregos só não abriam mão de seu idioma e de sua religião.Eram todos cristãos ortodoxos.
Risos alegres,novamente a pergunta sobre o que isso queria dizer em grego,outra vez a tradução mais ou menos, do" fio do novelo que se emaranhava ao vento,que era preciso dar um tranco na roca,para começcar a girar e para que a história pudesse se desenrolar.."
De historinha em historinha os netos iam decorando a cantilena que funcionava como o "era uma vez".


Vocês querem saber porque eu digo sempre que vocês são um pouco gregos também?Porque o pai de vovó Eleni era filho de um grego de Archangelos com uma índia de Mato Grosso.E sabem como foi que essa mistura pôde acontecer?É uma longa história! Posso contar se não tiver que ser num dia só.De acordo?
Diante do "sim" bem alto e esperançoso de que pudesse ser tudo naquela hora,vovó começou:
O que eu vou contar a vocês,meu pai seu papú Mihali me contou,contou para todos os filhos,assim como eu conto para vocês hoje.Minha avó(sua tataravó)também contava e eu nunca esqueci para poder contar a vocês.E quem contou tudo o que se passara antes de seu papú nascer a ele foi o papú dele também...
Ele gostava desse papú como vocês gostam desta vovó.Dizia sempre que ele era muito elegante,forte, corajoso.Adorava cavalos e era muito admirado por todas as pessoas da aldeia quando cavalgava muito imponente.Parecia um comandante na guerra.
Ele era tão garboso,que quando alguém estava bem bonito era comparado a ele:"você está parecendo o Mihali diziam.Sim...ele tinha o mesmo nome do avô!Os dois eram Mihali,avô e neto.
De seu avô o Mihali neto,escutava histórias como vocês escutam as que eu conto...todas de verdade.Ele dizia que no passado,nos tempos antigos na Grécia,as ruas eram feitas assim bem como labirintos que são até hoje bem fáceis das pessoas se perderem,de propósito para que os piratas que invadiam a ilha e o lugarejo,não conseguissem penetrar com facilidade e para que os habitantes os despistassem com facilidade,Entravam piratas sempre naqueles tempos,para saquear os povos pacíficos que só pensavam e trabalhar e viver com suas famílias.
Eram tempos muito difíceis...muito mesmo,mais até do que quando ainda faziam parte do Império Otomano,pois desde meados do século XIX,os guerrilheiros gregos haviam expulsado os turcos e ficado independentes;foi quando surgiu a Grécia livre,mas pobre.Tempos difíceis porque logo vieram os italianos e dominaram a Grécia.
"Vovó!E agora? disse Pedro com uma carinha intrigada...para quem vamos torcer?Nós somos um pouco gregos porque seu pai era filho de grego né?mas nosso nono é filho de italiano então nós somos um pouco italianos também?"
Eita...agora você me pegou...mas não tem problema...vocês não terão que torcer para um ou para o outro...sabem porque?Porque os gregos se deram muitíssimo bem com os italianos e até ficaram contentes quando tiveram que conviver na mesma ilha.Até as melhores escolas e hospitais foram eles que construiram e deixaram os gregos aprenderem e se tratarem,coisa que no tempo dos turcos não acontecia.
Antes do italianos chegarem, os gregos nem tinham muito trabalho na ilha para eles...tudo era só na Turquia e para lá eles tinham que ir todo dia para trabalhar,atravessando de barco da ilha para o continente,numa região que chamavam de Ásia Menor.

Não era trabalho fácil não...trabalhavam em fornos de cal,faziam pedras  calcáreas virarem cal,num processo exaustivo e extenuante;sendo que mesmo menores de idade,gente quase da sua idade Tomás,assim com 12,13 aninhos já ia trabalhar com os outros homens da aldeia.Eram fornos mesmo,uma espécie de forno feito nas montanhas,de pedras,que queimava e não podia apagar,tinham que ficar alimentando ali colocando pedras e retirando a cal...não tinha como não ficar em contato com aquela caloria horrenda.Muito difícil,mas era o que tinha para ganharem algum dinheiro.
Seu avô ficou muito feliz com a expulsão  definitiva dos turcos da ilha! Foi com imensa alegria que ouviu o amigo Stelios contando como os italianos chegaram e perguntaram-lhe onde estavam os turcos e ele pessoalmente,dissera onde viviam os terríveis inimigos dos gregos.
Porém,era uma época que  faltava trabalho.Não havia trabalho  para todos os jovens e a aldeia começava a sentir enormes dificuldades para sobreviver.Isso preocupava o avô Mihali que diante da incerteza, reuniu os filhos Doni, Costa e Nico  e tentava adivinhar o futuro de todos eles.
"Nicolau,meu filho,traga-me uma garrafa de ouzo“,pediu ao filho caçula.
O garoto,então com cerca de 12 anos,levantou-se rapidamente e correu ate o pequeno cafenio,a poucos metros de onde estavam.O pai,sentado numa cadeira diante da porta da casa tinha  o semblante carregado e uma expressão grave;era uma figura austera e forte em suas bombachas.Ele vestia camisa do tipo turco,sem colarinho e envolvendo a cintura trazia faixas que lhe conferiam a aparência elegante com que ficou conhecido.Pesadas  botas nos pés, completavam a imagem desse homem ao mesmo tempo doce e enérgico que viria a ser o avo de meu pai.Imagino seu olhar pensativo ,de azul faiscante buscando os dos filhos a sua volta  ,fixando-se neles e pressentindo duras provas.Sabia que dias difíceis viriam.Os antigos sabiam sentir e pressentir!
Cofiando as ponta do longo bigode ,torcia-as levemente para cima  e fechava o sobrolho em silencio.
            Em pouco tempo  o pequeno Nico retornou com a garrafa de ouzo e  começaram a conversar.Dentro da casa,a mãe e as irmãs Crisante e Charistula ocupavam-se com a massa   e os pães. 
Finalmente, depois de uma boa dose de ouzo, disse em voz forte e grave:

            “Filhos, a aldeia toda se ressente,e vocês já devem ter percebido também,as dificuldades pelas quais passamos e ainda havemos de passar.São todos homens feitos já,menos você Nicolau.Podem entender ,que para nós que vivemos do trabalho nos fornos de cal e de pequenos serviços na Asia, está ficando difícil demais.Aqui na ilha não há trabalho.Pessoas como nós que não possuem terra,sempre tivemos que enfrentar mais dificuldades.Nunca foi fácil…tivemos que  ir para a Ásia, no meio dos turcos, trabalhar para eles,enfrentando a dura travessia em pequenos barcos, longe da família, por meses e meses,num trabalho quase escravo para termos de onde tirar nosso sustento.Mas,agora,sob o domínio dos italianos,não podemos mais "trabalhar na Ásia Menor. O que faremos? Como vamos viver?”  
"Verdade vó,como iriam viver?"Conta logo!
    

Amanhã,quando vocês tiverem terminado suas tarefas,bem direitinho como fizeram hoje,a vovó Eleni,conta para vocês o que foi que se decidiu naquela reunião.Enquanto isso,deixemos os antepassados tomando seu ouzo e pensando nas soluções que encontrariam e vamos dormir que vovó está com muito sono!
" Ah...vó...bem agora?"
Sim coração,bem agora,para que vocês durmam interessandos e continuem sempre interessados nas histórias dça do passado.
    Entoaram juntos "morreu vitória,acabou a história e quem quiser que conte outra!
Beijos e bançãos e o kalinirta que já sabiam e dormiram esperando o "clostini closti! entoado pela avó,no dia seguinte.

Junho de 202-Helena Zarvos