domingo, 15 de março de 2020

Velhota bisbilhoteira

Uma velhinha mora em mim!

Conheço tão bem as respostas,
que me surpreendo com as perguntas
que penso não saber formular!

Sei tudo que ansiosa,procuro
Vou para onde sempre segui
Distingo sinais,conheço todas as rotas
Enquanto vagueio perdida
como se ainda não houvesse estado,
no lugar de onde nunca saí!

Maio(2005)

Andei mexendo em velhos papéis!Mais precisamente,fui bisbilhotar a vida da adolescente que fui aos 15 aninhos,
Relendo o velho diário,olhei aturdida para os registros guardados.No momento,não sei o que fazer com eles.Recém saída da infância,registrei experiências,sensações e sentimentos,escrevi poemas e textos de reflexão que parecem preciosos,porque são como retratos antigos,mas agora,não sei como me relacionar com eles,nem com os sentimentos expressos ali.São lágrimas e riso,mais lágrimas do que riso,de uma adolescente com quem venho mantendo um diálogo,a quem venho mostrando a vida;mas,diante dela assim, outra vez,nua e crua fico tão sem jeito como alguém fica diante da dor que não pode aplacar ou de uma alegria para cujo deleite não tem acesso.Nada pode ser feito,não há o que dizer,tudo já aconteceu,nada que diga terá mais serventia.No entanto,não posso ignorá-los.Estão aí,escritos nessas folhas de um velho caderno amarelado e parecem acrescentar:"antes que sejamos atiradas ao fogo,insistimos em dizer que tínhamos razão a respeito de quase tudo"
Na verdade,penso que ocorreu algo bem interessante,pois pude perceber nesse reencontro que o projeto da velhota dona de alguma sabedoria já estava lá!.Uma,já sabendo o que a outra ainda procurava saber.
Entre as duas então,aconteceu um diálogo ao qual assisto divertida e fascinada!
Quanto pode uma mulher quando consegue ouvir!Especialmente se ouvir a si mesma com atenção!
Descobri que a velhinha que eu serei,já mora em mim há muito tempo  e que ela é um anjo de guarda,minha velha guia!
Reencontramo-nos de modo quase deliberado.Ela assumindo o controle de minha mente e trazendo clareza desconhecida que se impõe.
Esse "quase deliberado"significa que eu sentia que ela estava ali me espreitando,se insinuando havia dias,se insinuando e tentando formalizar  uma presença antes insuspeitada.Veio precedida de suavidade interior,sensação delicada e mansa e um enlevo sutil na alma;como se uma fada bondosa,em meio a agitação infantil impusesse um dedo sobre os lábios e exigisse ser ouvida.Mais do que ouvida...apreendida com todos os sentidos.
Dentro de mim,mora um anjo!Uma velhinha doce e serena,a quem venho buscando desde a mais tenra idade,nas fantasias e posições assumidas ao longo de todas essas sete décadas,até encontrá-la sussurrando ao meu ouvido:"A criança,essa Deus faz e entrega aos pais,o adolescente e o jovem adulto,ainda tem traços fortes dessa criança,o adulto maduro tem mais da sociedade do que dos pais e de si mesmo e a nós,esse eu verdadeiro que se revela,cabe a tarefa de lapidarmos o velho que seremos e esculpirmos a marca indelével que haveremos de deixar.
Por ora,apenas isso,no mais,ela observa e lembra o que fiz,menina,moça,mulher feita e ainda faço e farei.
Com certeza,foi por inspiração dela que fui bisbilhotar e mexer em tão antigos registros,guardados no diário da adolescente que fui.
Aos poucos saberemos mais!

Paz e bem!