quarta-feira, 3 de junho de 2015

Meu pai


                               Meu pai

 

 

Enquanto ele viveu era o meu pai,mas depois que se foi tornou-se algo mais.

Com ele presente(uma interação difícil diante da autoridade que não se podia desafiar)minhas defesas se aguçavam.Eu precisava me afirmar no mundo.

Enfrentava,questionava no silencio dos mais fracos,sonhava com libertação e temia.

Amava e temia.Muito amava e muito temia.

A segurança e toda a proteção que necessitava,na infância pareciam vir dele.

Na juventude,todas as regras impostas tolhiam e castravam.

A busca pelo novo, própria dos jovens,o desejo de experiência de vida era sempre obstruída pela voz da experiência dele.E do poder.

A regra era obedecer.

Na infância o deleite das histórias,longas histórias,adoradas histórias que contava;na juventude e maturidade o prazer de ouvir suas memórias e conceitos políticos,filosóficos,morais e até religiosos.
Agora podíamos compartilhar experiencias e muitas idéias.

Ainda assim,vez por outra o gesto autoritário que não podia ser enfrentado senão timidamente e muito respeitosamente.

Agora tornou-se referencia que posso seguir.Livremente, na medida que me aprouver e quase sempre perfeito sinal de correção no caminho.

Posso dar razão a quase tudo sem me sentir ameaçada por sua força.

Ela agora está interiorizada e me pertence.

Isso tornou meu pai aquilo que todos os antepassados eram na Grécia Antiga...os lares!Deuses protetores de seu clã e guardiões de todos os esforços para nos tornarmos também bons sinalizadores um dia.

Os valores transmitidos ganham nova dimensão,como que depurados de toda interferência da personalidade de quem quer que seja.Ele se tornou também meu avô,meu bisavô,meu tataravô,a mãe dele minha avó,os índios dos quais ela nasceu como mescla muito rara e preciosa.Tornou-se a bisavó espanhola e a tataravó inglesa!

Há poucos dias foi homenageado em uma comovente inauguração na Camara Municipal.Deu nome a um salão de eventos no espaço em que mais orgulho sentiu como cidadão.Vereador,presidente da Câmara,político não remunerado como eram todos em seu tempo e batalhador valente pela causa que defendia.

Faço minhas as palavras bem lembradas de minha irmã Marina em seu discurso no dia do descerramento da placa com   o nome dele:

 

“ Nosso pai,filho de pai grego e índia bororó,carregou como dupla herança genética , o amor pela natureza e pela política.Parecia ver,na sua cidade,a pequena aldeia indígena onde todos buscavam o bem comum.Parecia ver,na cidade,a polis grega,nascida das mentes de seus ancestrais e lugar do exercício da democracia.

....

“ Com ele aprendemos,nós,seus filhos e netos,a força da honra e da honestidade.Dele ouvimos,desde muito jovens as palavras de muitos filósofos.Dele ouvimos as palavras de Platão a uma visitante ateniense  dizendo: Uma sociedade em que nem a riqueza nem a pobreza existem,produz homens de excelente caráter,já que nela não há lugar para violência ou maldade,nem para rivalidade ou inveja”

 

 

Usei esses trechos de seu discurso para tornar mais claro meu propósito nesta reverencia a ele.

Entendi que também meu pai envelheceu para consolidar um caráter,assim como propõe o psicanalista James Hillman em seu livro” A força do caráter e a poética de uma vida longa”.

Nosso pai se foi aos 91 anos e hoje não é mais um forte personalidade ou um temperamento explosivo e autoritário.É um valor inestimável,um caráter que transmitiu seus valores e um antepassado que jamais será esquecido enquanto um descendente seu viver.

Os valores aprendidos em casa dão sentido até mesmo à obediência tão rejeitada.Era o preço que pagamos para ter algo que hoje faz falta em muitos lares:a hierarquia.

Sobre isso falamos outro dia.

 

Um brinde ao meu pai Miguel Antonio Zarvos.

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