Meu
pai
Enquanto ele viveu era o meu pai,mas depois que se foi
tornou-se algo mais.
Com ele presente(uma interação difícil diante da autoridade
que não se podia desafiar)minhas defesas se aguçavam.Eu precisava me afirmar no
mundo.
Enfrentava,questionava no silencio dos mais fracos,sonhava
com libertação e temia.
Amava e temia.Muito amava e muito temia.
A segurança e toda a proteção que necessitava,na infância
pareciam vir dele.
Na juventude,todas as regras impostas tolhiam e castravam.
A busca pelo novo, própria dos jovens,o desejo de experiência
de vida era sempre obstruída pela voz da experiência dele.E do poder.
A regra era obedecer.
Na infância o deleite das histórias,longas
histórias,adoradas histórias que contava;na juventude e maturidade o prazer de
ouvir suas memórias e conceitos políticos,filosóficos,morais e até
religiosos.
Agora podíamos compartilhar experiencias e muitas idéias.
Ainda assim,vez por outra o gesto autoritário que não podia
ser enfrentado senão timidamente e muito respeitosamente.
Agora tornou-se referencia que posso seguir.Livremente, na
medida que me aprouver e quase sempre perfeito sinal de correção no caminho.
Posso dar razão a quase tudo sem me sentir ameaçada por sua
força.
Ela agora está interiorizada e me pertence.
Isso tornou meu pai aquilo que todos os antepassados eram na
Grécia Antiga...os lares!Deuses protetores de seu clã e guardiões de todos os
esforços para nos tornarmos também bons sinalizadores um dia.
Os valores transmitidos ganham nova dimensão,como que depurados
de toda interferência da personalidade de quem quer que seja.Ele se tornou
também meu avô,meu bisavô,meu tataravô,a mãe dele minha avó,os índios dos quais
ela nasceu como mescla muito rara e preciosa.Tornou-se a bisavó espanhola e a
tataravó inglesa!
Há poucos dias foi homenageado em uma comovente inauguração
na Camara Municipal.Deu nome a um salão de eventos no espaço em que mais
orgulho sentiu como cidadão.Vereador,presidente da Câmara,político não
remunerado como eram todos em seu tempo e batalhador valente pela causa que
defendia.
Faço minhas as palavras bem lembradas de minha irmã Marina
em seu discurso no dia do descerramento da placa com o nome dele:
“ Nosso pai,filho de pai grego e índia bororó,carregou como
dupla herança genética , o amor pela natureza e pela política.Parecia ver,na
sua cidade,a pequena aldeia indígena onde todos buscavam o bem comum.Parecia
ver,na cidade,a polis grega,nascida das mentes de seus ancestrais e lugar do
exercício da democracia.
....
“ Com ele aprendemos,nós,seus filhos e netos,a força da
honra e da honestidade.Dele ouvimos,desde muito jovens as palavras de muitos
filósofos.Dele ouvimos as palavras de Platão a uma visitante ateniense dizendo: Uma sociedade em que nem a riqueza
nem a pobreza existem,produz homens de excelente caráter,já que nela não há
lugar para violência ou maldade,nem para rivalidade ou inveja”
Usei esses trechos de seu discurso para tornar mais claro
meu propósito nesta reverencia a ele.
Entendi que também meu pai envelheceu para consolidar um
caráter,assim como propõe o psicanalista James Hillman em seu livro” A força do
caráter e a poética de uma vida longa”.
Nosso pai se foi aos 91 anos e hoje não é mais um forte
personalidade ou um temperamento explosivo e autoritário.É um valor
inestimável,um caráter que transmitiu seus valores e um antepassado que jamais
será esquecido enquanto um descendente seu viver.
Os valores aprendidos em casa dão sentido até mesmo à
obediência tão rejeitada.Era o preço que pagamos para ter algo que hoje faz
falta em muitos lares:a hierarquia.
Sobre isso falamos outro dia.
Um brinde ao meu pai Miguel Antonio Zarvos.
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