domingo, 3 de maio de 2020

Missa das dez

Era para ser um horário de missa,assim como era o das seis,das sete,das oito e das dezoito horas..
A catedral oferecia horários diversos de missa na pequena cidade do interior.Que ninguém deixasse de assistir missa aos domingos por dificuldade com isso.
A das dez,porém tinha tudo de diferente;olhava-se menos para o altar,andava-se mais de salto alto,reparava-se muito quem comungava quem não,observava-se discretamente o da frente, o do lado e quaisquer daqueles que nossa vista alcançasse.
Tomava-se certo cuidado com a escolha de onde sentar,levando sempre em consideração os espaços já ocupados,para não invadir domínios de famílias ou grupos aos quais sabíamos não pertencer.
Entradas muito pontuais eram reservadas para pessoas comuns,menos diferenciadas na sociedade.Quanto mais era para chamar a atenção,mais se chegava um tantinho atrasado à missa,para que muitos e muitos olhares discretos pudessem apreciar e invejar a senhora perfumada,em seu tailleur bem cortado que carregava no antebraço com gesto corretíssimo, a bolsa que fazia par com o sapato de salto alto usado com elegânca estudada e indecorosamente formal como as meias de costura na batata da perna,sempre alinhadíssimas!Ai se estivessem tortas, senhora! E sem fazer toc-toc com os saltos,pois já haviam aprendido que para usá-los adequada e elegantemente,havia que se pisar antes com a ponta dos pés a cada passo. Notem,essa jovem senhora,não passava de seus 25 ,26 anos e já era matrona,entrava como devia entrar a madame fulana de tal,casada,bem casada .Melhor se viesse trazendo pela mão a filha,bela bonequinha de luxo,que na missa das dez,de certo modo já era apresentada à sociedade.
Todas a veriam crescer a cada missa das dez,sempre linda com longos e bem penteados cabelos,vestida a cada domingo com uma veste nova e diferente,por meses,quiça anos,sem cometer a heresia de repetir a mesma,assim como fazia a mãe.
Cabelos bem cortados,curtos como passara a usá-lo desde  a volta da lua de mel como um atestado de que já era uma mulher feita,pois que sòmente as solteiras os usavam longos.
Orgulhosa de seu nome de origem,do sobrenome adquirido pelo casamento com um excelente "partido",era esposa do médico.Naquele passado,engenheiros ainda não tinham o status de hoje,administradores de formação não havia ainda...executivos muito menos.Lá ao menos não haviam.Ou esposa do delegado,do advogado ou juiz?Talvez um gerente de banco...sim...gerente de banco das poucas agencias do Banco do Estado,Banco do Brasil,Banco Noroeste....ah sim..Banco Bandeirantes,de lindas e imponentes sedes de beleza arquitetônica clássica.No sobrado mesmo habitava a família do sempre respeitável gerente.
Eram aqueles os "estamentos"que vigoravam no ápice de uma sociedade requintada,formada alí. As jovens que foram estudar nos Colégions Sion ou Des Oiseaux nem sempre voltavam.Sumiam em esferas européias ou paulistanas que nem todas almejavam apenas desfilar numa passarela tão seleta como pequena.
 O véu  negro nos cabelos bem penteados e fixos com "laquê" substituiram os brancos véus da solteirice e faziam inveja a todas nós da "turma do futuro" que ainda desfilavamos com saiotes esvoaçantes de meninotas casadoiras.Claro...13,14 aninhos já eram pré-vestibulo(de noivados e casamentos).Em pouco tempo,já debutantes,iriamos ajustar nossos "tubinhos",mostrar nossas curvas( as que as tinham eram muito sortudas) e esperar o dia de, já devidamente casadas ir para o  desfile na missa das dez, de cabelos cortados e aliança no dedo. Meta alcançada?Sim...se o casamento acontecesse antes de passarmos da idade.Um quarto de século era  idade de matrona.
Hoje,50 anos passados de toda essa riqueza de contéudo subliminar para identificação de quem éramos,penso,envelhecente que estou,não na turma do passado,isso nunca...mas na da turma de quem aprendeu cedo a querer viver o presente,um dia de cada vez,aprendendo sempre,lendo..e relendo livros que sustentaram muita contestação do que é bom e belo para uma sociedade verdadeiramente decente.Quantas de nós,ainda frequentam a missa das dez?
Muitas,eu espero,rezam de verdade nas missas das 18 ou das 8 da manhã,ou melhor ainda, em casa e no coração.
Quem sabe quantas,até fazem mais do que rezar por esse mundo melhor.

Paz e Bem!

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Dia do trabalho -2020

Escrevo do mais fundo da alma.Não é a personalidade se expressando e sim um Eu que cresce e fortalece vínculos com a sua própria parcela de humanidade no "Todo" que em meio à dor,se mostra a cada uma de nós.
Em poucos minutos o mundo estará celebrando o trabalho e desta vez,com certeza,muitas sensibilidades afloradas e mentes clareadas pelo impacto da doença assutadora exaltarão os profissionais que não podem ficar em casa.Todos eles...desde o porteiro do hospital,aos lixeiros e coveiros.
Também eu,mãe,sogra,irmã,prima e tia  de profissionais da saúde,levanto-me e curvo-me diante deles,respeitosa e grata,assim como faço diante de todos os outros do Brasil e do mundo.Idosa,mais do que todos eles,cedo de bom grado o direito hierárquico de ser reverenciada (mais novos quase todos do que eu).É momento de honrar o que cada um deles representa,sua dedicação e consciência de dever,juramento,ideal e humanidade.Esses príncípios,por tanto tempo esquecidos,desprezados e tratados como valores ultrapassados,agora se impõem por força da circustância planetária e alguns poucos heróis(nossos vocacionados da saúde em primeiro)vem justamente nos comover com a lembrança de que sua vida é uma chamado ao serviço do divino que há em nós: a centelha de vida e o amor.É trabalho ainda mais sagrado...é vocação!É sacerdócio!
Deixam em casa as famílias apreensivas,trabalham muitas vezes sem as condições necessárias para que haja um mínimo de segurança em seu retorno ao lar e ainda assim lá estão,dia após dia vivendo seu juramento.
No âmbito da confluência do que é dever familiar de mães e pais que são,a escolha difícil da prioridade a ser atendida,a dolorosa escolha de Sofia que muitos precisam e acabam fazendo com sofrimento e perda seja por uma seja por outra opção nessa encruzilhada;é mais um fator de sofrimento e quiça de culpa.
Rezo,vibro,mentalizo e me entrego toda de coração a essa corrente de amor por todos os trabalhadores da saúde,da higiene como os lixeiros o são,daqueles que atendem a todos os serviços essenciais neste atípico dia do trabalho,mas...permito-me de expressar o que vai no coração,em especial pelos da saúde na linha de frente do duro combate.
Peço a Deus que sensibilize autoridades capazes de decidir,quando o que falta muitas vezes é apenas o gesto humilde de "pedir ajuda" a países que já tendo superado a pandemia agora poderiam disponibilizar recursos;que possam sentir o toque de humana coragem e alçar dimensões acima de sua pequenez política e ou ideológica.Acima e além de todo egoísmo.
Enquanto há tempo de escolher,escolhamos que a palavra "crescimento"que por décadas e décadas depois da segunda guerra  foi associado a "econômico",seja agora associada a "espiritual".Por Deus! cresçamos ao menos na dor,no sentido da Luz e da Harmonia Cósmica.
Que cada um faça sua parte!De nossa posição de idosos da família,o que podemos é alertar,lembrar,rezar e abençoar.
Bençaos,muitas bençãos, sobre nossos filhos,noras,genros,tios,irmãos,pais,mães,sobrinhos,,maridos,esposas,amigos e conhecidos,
que com armas insuficientes lutam com devoção de santos e coragem de heróis.

sábado, 11 de abril de 2020

Molon Lavé

“Molón Lavé” !Quando nosso pai dizia essas palavras,visivelmente emocionado,todos nós,os quatro filhos,sentíamos a mesma vibração e sabíamos que era o ápice da história.Era o momento da interiorização do conceito de coragem e honra. Dizia em grego e depois traduzia:”venham buscar” referindo-se ao momento crucial em que Xerxes cobra a rendição dos espartanos devido a sua inferioridade bélica e a entrega das armas."Molon Lavé"(Venham buscá-las)Então, Xerxes replicou ameaçador que as flechas de seu colossal exército de mercenários iriam escurecer o céu.Nosso pai repetia então,com aquela mesma entonação de orgulho que o rei Leônidas de Esparta usara então:”Melhor,pois assim lutaremos na sombra”! Lembro desse relato de nossa infância neste momento de quarentena assumida,certa de que muitos podem ainda não terem se convencido de como o mundo pode ter que funcionar diferente em tempos de guerra.Como naquela lendária batalha no estreito das Termópilas,somos todos chamados a ter coragem e um senso de honra e glória que pareciam perdidos na Antiguidade. Xenofonte,historiador antigo, conta como em outras partes da Hélade e do mundo,um covarde era simplesmente chamado pela palavra que em si já era uma sentença,mas em Esparta a execração era muito maior:”nenhum espartano sentar-se-ia à mesa com um para não passar vergonha,coraria se o encontrasse no ginásio para seus exercícios,nas ruas,esperaria que ele lhe desse o passo e se sentado deveria se levantar até diante de homens mais moços”( República dos Lacedemônios,cap.IX).Um soldado espartano preferia a morte à desonra. Todo esse esforço,no caso específico das Termópilas por uma razão: Atenas precisava evacuar toda sua população para Salamina,pois sua capacidade defensiva era muito menor.Estratégia e tática de combate e escolha de terreno adequado para o embate final necessitavam de tempo.Esse tempo precioso foi garantido por Leônidas e seus valorosos combatentes .Os esforços no desfiladeiro das Termópilas mesmo custando a vida de todos os soldados,foi o tempo necessário para se organizar a defesa e a derrota dos persas,que mesmo com todo esse esforço defensivo,ao final de um tempo,invadiram,destruíram e saquearam a Atenas completamente vazia.A população havia sido evacuada.Avançaram então para Salamina,mas ali no estreito que separa a ilha da Ática,a batalha naval deu a definitiva vitória aos espartanos naquele séc.V AC.Os persas foram vencidos.Houve ainda tentativas por parte destes,de novas invasões,mas a união de todas os clãs e de todas as regiões da antiga Grécia,depois de Salamina,venceu definitivamente os persas. Essa lição de estratégia e coragem deve nos inspirar.Se estamos confinados,cada um em suas casas,nesta quarentena contra o inimigo que avança impiedoso ,devemos nos lembrar,que ficar me casa,não significa apenas“salvar-me” ou”proteger o outro”.Alguns equívocos levam pessoas a fantasiar e esquecer que todo esse esforço é necessário para que a estrutura básica de atendimento esteja em condições de atender aos que necessitarem no auge da doença no Brasil.É o tempo precioso de “evacuar Atenas”. Monumentos,obras de arte,casas,bens...tudo foi destruído,mas..as pessoas se salvaram...todos os atenienses se salvaram em Salamina. Que possamos entender esses profissionais da saúde e os gestores da crise que nos pedem para ficar em casa e que estão obrigados ao enfrentamento direto, como os valentes espartanos do rei Leônidas e entender nossa posição como os protegidos e evacuados para a ilha segura. Não há outro modo,pois queremos vida,saúde e mais...que o maior contingente da linha de frente volte são e salvo com seus escudos para nosso aplauso e eterna gratidão e não em cima deles! Um brinde a todos os humanos convencidos de que SOMOS UM!

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Espantalhos



Há bocas caladas nos becos
Das grandes cidades...
Marcadas, vincadas,
De certa forma doentes
De doença de outrem,
De insanidade
Há olhos de espanto
Olhando escândalos e vendo
Sem nada ver
Sem perceber
Que em cada abuso do outro
O seu há de perder
Há peles e ossos cozidos
Com pouca linha e muito nó
(retalhos de gente)
um pouco como... espantalhos?
De corvos estranhos
Maldita espécie indecente
Demente

Quem sabe não haveria
Uma grita sufocada
Uma visão semi obscura
Uma força inda oculta
Que se levanta ...e luta?

domingo, 15 de março de 2020

Velhota bisbilhoteira

Uma velhinha mora em mim!

Conheço tão bem as respostas,
que me surpreendo com as perguntas
que penso não saber formular!

Sei tudo que ansiosa,procuro
Vou para onde sempre segui
Distingo sinais,conheço todas as rotas
Enquanto vagueio perdida
como se ainda não houvesse estado,
no lugar de onde nunca saí!

Maio(2005)

Andei mexendo em velhos papéis!Mais precisamente,fui bisbilhotar a vida da adolescente que fui aos 15 aninhos,
Relendo o velho diário,olhei aturdida para os registros guardados.No momento,não sei o que fazer com eles.Recém saída da infância,registrei experiências,sensações e sentimentos,escrevi poemas e textos de reflexão que parecem preciosos,porque são como retratos antigos,mas agora,não sei como me relacionar com eles,nem com os sentimentos expressos ali.São lágrimas e riso,mais lágrimas do que riso,de uma adolescente com quem venho mantendo um diálogo,a quem venho mostrando a vida;mas,diante dela assim, outra vez,nua e crua fico tão sem jeito como alguém fica diante da dor que não pode aplacar ou de uma alegria para cujo deleite não tem acesso.Nada pode ser feito,não há o que dizer,tudo já aconteceu,nada que diga terá mais serventia.No entanto,não posso ignorá-los.Estão aí,escritos nessas folhas de um velho caderno amarelado e parecem acrescentar:"antes que sejamos atiradas ao fogo,insistimos em dizer que tínhamos razão a respeito de quase tudo"
Na verdade,penso que ocorreu algo bem interessante,pois pude perceber nesse reencontro que o projeto da velhota dona de alguma sabedoria já estava lá!.Uma,já sabendo o que a outra ainda procurava saber.
Entre as duas então,aconteceu um diálogo ao qual assisto divertida e fascinada!
Quanto pode uma mulher quando consegue ouvir!Especialmente se ouvir a si mesma com atenção!
Descobri que a velhinha que eu serei,já mora em mim há muito tempo  e que ela é um anjo de guarda,minha velha guia!
Reencontramo-nos de modo quase deliberado.Ela assumindo o controle de minha mente e trazendo clareza desconhecida que se impõe.
Esse "quase deliberado"significa que eu sentia que ela estava ali me espreitando,se insinuando havia dias,se insinuando e tentando formalizar  uma presença antes insuspeitada.Veio precedida de suavidade interior,sensação delicada e mansa e um enlevo sutil na alma;como se uma fada bondosa,em meio a agitação infantil impusesse um dedo sobre os lábios e exigisse ser ouvida.Mais do que ouvida...apreendida com todos os sentidos.
Dentro de mim,mora um anjo!Uma velhinha doce e serena,a quem venho buscando desde a mais tenra idade,nas fantasias e posições assumidas ao longo de todas essas sete décadas,até encontrá-la sussurrando ao meu ouvido:"A criança,essa Deus faz e entrega aos pais,o adolescente e o jovem adulto,ainda tem traços fortes dessa criança,o adulto maduro tem mais da sociedade do que dos pais e de si mesmo e a nós,esse eu verdadeiro que se revela,cabe a tarefa de lapidarmos o velho que seremos e esculpirmos a marca indelével que haveremos de deixar.
Por ora,apenas isso,no mais,ela observa e lembra o que fiz,menina,moça,mulher feita e ainda faço e farei.
Com certeza,foi por inspiração dela que fui bisbilhotar e mexer em tão antigos registros,guardados no diário da adolescente que fui.
Aos poucos saberemos mais!

Paz e bem!




domingo, 12 de agosto de 2018

A casa da avenida Paulista

Em 1938,toda a família se mudou para São Paulo,para um palacete na avenida Paulista,local onde então residiam os afortunados do início do século.Luxo,elegância,classe,requinte...assimilados com naturalidade,sem afetação,pelo comerciante bem sucedido,mas que nunca esqueceu sua origem e sua família na Grécia.Localizada na altura do número 1063,sua residência era vizinha à da família Matarazzo,outro imigrante,que havia vindo de Castelabatte,em Napoli,a procura de melhores condições,como ele.Em Lins, o sobrinho,Miguelzinho,como era conhecido o recém-chegado da ilha de Rhodes,meu pai,ficou como gerente-geral da Cafeeira.
Entre 1938 e 1948 quando faleceu,comprou Máquinas de café e arroz em Cafelândia,em Guaimbê,de algodão em Birigui e aumentou muito o movimento.De seu escritório em Lins,Miguelzinho dirigia conforme a orientação do tio.Centenas de vagões,carregavam e descarregavam mercadoria no interior enquanto Nicolau em São Paulo operava na Bolsa de  Mercadorias.
Enriquecia mais e ràpidamente devido a seu extraordinário tino comercial ,coragem e honestidade.Trabalhava muito,mas a essa altura já sentia dores e tinha a saúde debilitada.Ainda assim,comprou a Fazenda Itapura de 10.000 alqueires e logo em seguida a fazenda Capão Bonito em Campo Grande,(63.000 alqueires),prédios e terrenos em São Paulo nos melhores e mais valorizados pontos.Em Lins, construiu 60 casas,o Lins Hotel e já havia comprado o Hotel Central(atual Plaza Hotel)de um antigo proprietário alemão.
Fez muitos amigos,entre eles,dr.Urbano,que foi prefeito da cidade,o também prefeito Paulo Lusvarghi,dr.Nestor de Cunto  e muitos mais.Wadih Haman,foi um dentre os muitos amigos sírios.
Em 1948 visitou Lins pela última vez,.Foi com o sobrinho Miguelzinho,até a casa em Lins,que ora se encontra em processo de recuperação,olhou demoradamente para a residência,passou as mãos,carinhosamente pelos muros,nos troncos das palmeiras que ele mesmo plantara.Despediu-se dos amigos pressentindo que já não os veria.Comunicou-lhes que iria para os Estados Unidos para se operar,ainda que muito insistisse seu amigo dr.De Cunto,para que fizesse a cirurgia aqui mesmo.Inclusive,ele mesmo poderia fazer.
Os gregos antigos,dizem que o destino de cada um(Mira) nem mesmo os deuses conseguem mudar.
Despediu-se da cidade que tanto amou e com o crescimento da qual colaborou.
Grande homem! Generoso,atuou durante a Guerra,a segunda,numa frente solidária (o Comitê Helenico de Socorro às vitimas de Guerra.)
Sua casa em Lins foi doada à prefeitura pelos herdeiros para ser ali instalada uma Biblioteca e assim foi feito.Biblioteca Municipal Nicolau Zarvos.
A bela avenida que leva seu nome,foi uma homenagem da cidade e dos representantes do povo linense,na Câmara onde a lei foi aprovada,
Nicolau Zarvos, que nunca frequentou uma escola,era convidado pelo Presidente Dutra e antes por Getúlio Vargas para opinar sobre agricultura e comércio.Vestia-se e portava-se como um príncipe,como se tivesse nascido em berço de ouro.
Aqui termina a cronologia escrita por nosso pai,Miguel Antonio Zarvos, e eu ouso,num p.s.lembrar, que nosso tio nasceu num campo de trigo,quando sua mãe ajudava na mesma.Ali,no campo,cercada por todas a mulheres da aldeia que então colhiam o trigo,sua mãe ouvio o vaticínio...será como um rei.O trigo dá sorte...é sinal de que será muito rico.
A vida se encarrregou de fazer dele o rei do café.

sábado, 4 de agosto de 2018

Trajetória do tio Nicolau

Cuiabá!Corumbá! Alto sertão em 1915...a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil chegara a pouco tempo àquelas paragens.Destino de jovens vindos da paradisíaca e pobre ilha de Rhodes,em busca de sobrevivência para os seus,na longínqua ilha e quiça,fortuna...porque não?Afinal,Nicolau sabia em seu coração que a sorte lhe reservava algo.Quando,ao se despedir da mãe,ainda menino viu lágrimas correndo em seu rosto mas garantiu-lhe que " vou tirar nossa família da pobreza mãe...a senhora ainda vai se orgulhar muito de mim"
Antula,a mãe desolada,lembrou-se então do vaticínio ouvido no momento em que seu caçula nascera,num dia de colheita de trigo,em pleno campo":esse menino será como um rei!"
A ela,só restara abraçar e abençoar seu menino que embarcou para um Brasil longínquo,intuindo que nunca mais o veria,mas que,sim...era esse o destino do filho.
Nesse momento,seu destino incluia um mergulho numa "selva selvaggia"do vasto Brasil desconhecido até para os brasileiros,numa rota de linha férrea que desvirginava o interior e revelava segredos zelosamente guardados há séculos.
Em Corumbá,o trabalho disponível era novamente fornos de cal.De tão longe vieram,para novamente se encontrarem nos infernais fornos de cal,os mais velhos.Nicolau,trabalhou num hotel de um grego por algum tempo ,não muito.Logo conseguiu trabalhar por conta própria,fazendo e fornecendo marmitas aos demais trabalhadores locais.
Corria o ano de 1918 e Nicolau se empregou como garçon na Estrada de Ferro Noroeste do Brasil e no ano seguinte chegou a Lins pela primeira vez.Aqui passou a comprar arroz e cebola para vender em Mato Grosso.
Em 1920,com reservas acumuladas até então,comprou um pequeno armazém perto da Igreja de Santo Antonio  e ali passou a armazenar a mercadoria que comprava para revender e dessa data até 1925 continuou comprando e vendendo cereais e também café.Construiu então,a casa que ora a prefeitura de Lins se propõe a reformar para melhor preservação.Foi a residência da família que constituiu por essa ocasião com dona Haydée,uma jovem educada e linda.
Durante a crise de 1929,o crack da Bolsa de Valores de Nova Iorque,crise internacional de graves proporções,o café desvalorizou muito, mas o jovem empresário no momento estava capitalizado e comprou tantas sacas quanto pôde,a preços muito atrativos e então esperou a alta,que aconteceu depois de certo tempo,quando então pôde vender muito bem o café que estocara..Foi então que ganhou muito dinheiro.Mais do que já vinha acumulando com seu comércio de cereais.Começara a comercializar café pouco antes da crise.Destino?Tino comercial?A Mira como dizem os gregos...mais poderosa que os deuses...a sorte de cada um.Nicolau podia agora crescer.Em breve seria conhecido como o rei do café ,exatamente como havia sido vaticinado.
Em 1931 comprou a primeira máquina de beneficiar café e arroz em Guaiçara e seu amigo e conterrâneo com quem viera de Archangelos,Steliano,passou a gerenciar a "Máquina Santa Helena".No ano seguinte,comprou a "Máquina São Nicolau" em Lins,perto do Córrego Campestre,de beneficiar arroz e café e onde instalou também a beneficiadora de algodão,uma das primeiras da Noroeste do Estado.Ali,naquelas instalações havia desvio exclusivo de trem para carga e descarga de mercadoria.
Em minhas próprias lembranças,vejo um imenso galpão,grande como a área onde atualmente costumam se alojar parques de diversões e circos,perto do Terminal Rodoviário de Lins.Era uma imenso armazém,onde além de estocar,se beneficiava os grãos.Sinto ainda o odor da sacaria...montanhas de sacas de café e algodão;um vai e vem de carregadores,de catadeiras e um entra e sai de vagões de trem.Era tanto movimento  que mesmo hoje,com todo o transito da Lins urbanizada,quando passo por ali,parece que a área ficou esquisita,sem o apito do trem e sem aquela luxuriante azáfama.
As lembranças são da década de 50,quando ele já havia falecido...eu era ainda muito pequena e por isso,as dimensões me pareciam ainda maiores,mas,os relatos comprovam...era mesmo muito café,muito movimento,muito dinheiro.
Por ora,então,um brinde ao que se costuma chamar de "destino"!