segunda-feira, 30 de julho de 2018

Ação política

Nos tempos que correm,não há como não pensar o que se passa.Falo da prisão de Lula e no significado que adquiriu.Muito mais do que ser ou não justa,para além de se estar lutando ou não contra a corrupção endêmica,fato ou não que o PT se envolveu nas sombrias interlocuções e nefasta "conciliação" de interesses irreconciliáveis,o fato é que estamos diante de manobras que comprometem a democracia.
Nem sei se considero democracia nos termos atuais algo a ser defendido tão ferozmente,pois é óbvio que a mesma adquiriu um sentido novo e que tal sistema se identifica melhor com o termo pós-democracia.Mas, considerando que devemos usar os conceitos consagrados como bons:democracia.
Sobre essa questão o que me ocorre é refletir em que medida a identificação com essa luta pela democracia se insere num contexto de generosidade e empatia.Não sou,não fui nunca uma pessoa que se pudesse chamar de generosa e como a qualidade é vista como virtude,sempre me penitenciei um tanto por saber-me egocentrada.Também não consigo me dizer "egoísta".O centro sendo eu mesma,minhas referencias e valores,uma certa auto-suficiência,com meus livros e afazeres,minhas indagações,meus textos,meu olhar sobre o que vivo e o Universo;indagações espirituais e inquietações intelectuais,o gosto por expressar-me escrevendo....dessa forma me inseri sempre no mundo.Cada um a sua maneira,interage.
A filantropia nunca me parece atraente.Até um pouco sedativa sabe?Aquele tipo de ação que socorre para não resolver o problema?
Pois bem, neste momento,do íntimo do meu ser,penso que por ser egocêntrica,por ansiar muito viver a vida à qual nos acostumamos,desde o primeiro governo Lula,com Brasil e brasileiros caminhando em direção ao direito de sermos todos menos preocupados com a sorte dos menos privilegiados,eis que voltam os pesadelos da juventude,a repressão e mais a miséria ameaçando novamente milhões de brasileiros...não há mais como desfrutar em paz de nada.Só o que ocorre é que seja por egoísmo seja por altruísmo é imperioso seguir com Lula, na resistência que sua permanência detido provoca.
Não tem como continuar no conforto de nossa vidinha mais ou menos ( e eu egoísticamente quero) sabendo que tantos e tantos brasileiros sofrem as consequências do golpe.Todos sofremos.
Assim,por amor ou pela dor...nem importa mais definir o que nos move,Lula precisa voltar.
Quem sabe até,depois dessa crise,possamos dizer que aprendemos que ações como,caridade e filantropia,soam estranhos quando se vive em uma sociedade cooperativa e solidária.
Um brinde ao melhor do que é humano!

sábado, 7 de julho de 2018

Perdas e Ganhos

Hoje é dia de ouvir falar em perda.O Brasil foi eliminado ontem da Copa da Rússia.
Fiz um breve comentário no twitter,mas a idéia permaneceu em processo de elaboração mais profundo.Fiquei pensando,do alto dos meus setenta anos,que há coisas que sinto como ganho;que a  idade poderia ser vista como perda da juventude...e por aí fui.Pensei em quanto o mundo estimula as pessoas hoje me dia a "conquistarem" a "não perderem" a serem os primeiros em tudo,a terem mais e melhor a não perderem oportunidades...etc,etc.
Ainda ontem recebi um vídeo  de uma entrevista do Omar Shariff(verdade ou mentira,não sei) onde conta como um "não" de uma mulher,diante do convite dele para irem beber em seu quarto de hotel,o desviou do primeiro propósito, para uma noitada num cassino,onde ganhou milhões de dólares!
Hoje,pela manhã,alguém me enviou uma mensagem dessas que se encaminha diàriamente,de bom dia,com os dizeres:Não posso evitar que meu corpo envelheça,mas minha alma sim!
Um dado daqui outro de lá, e passei horas hoje pensando em como se entende muito mal a tal "perda".Como se fosse sempre fracasso e atraso.
Para mim,hoje,idosa,de tudo o que consegui me libertar,me livrar,dispensar,reduzir,eliminar,os pesos,as mágoas,o desnecessário,o supérfluo,o incompatível, seja físico ou moral,seja no hábito seja na mala,seja no armário de roupas ...tudo o que consegui eliminar,fui percebendo que só me acrescentaram anos de vida,leveza no transito social e vida nos meus dias.
Lembro-me de uma época,trabalhando em uma boa escola particular,em que tive oportunidade de conhecer os "Jogos Cooperativos".Resumindo era o seguinte: a dança das cadeiras,que todos conhecem,funcionava de forma reversa.Cada participante que "perdia" a chance de sentar,não caia fora,como no jogo original,ele continuava no jogo e uma cadeira era retirada.Na segunda parada da música,idem...mais uma cadeira saía e todos continuavam disputando as mesmas...sendo que era permitido sentar no colo de qualquer um que estivesse ao alcance na hora da parada da música.
Depois de um tempo, poucas cadeiras e poucos sentados nela,e outro tanto se amontoando sobre os poucos sentados...uma enorme sobrecarga.
Bem...a lição foi clara....nem sempre ganhar é vantajosos.Em mundo predador e competitivo, insensibilidade quanto à amargura do outro e vantagens pessoais caminham juntas muitas vezes.Já,onde a cooperação é a regra,ou se assimila que a responsabilidade e a carga é maior para os "vencedores",ou se aprende que less is more,em algum sentido.
Enquanto vamos vivendo num mundo assim tão voraz pelas chamadas conquistas,não custa ao menos repensar o sentido de "abrir mão"" preferir não"" escolher menos" e até o sentido altamente educativo e moral da perda à qual de qualquer forma estamos todos sujeitos.
Deasapego,desprendimento e leveza se consegue amando aquilo que temos aqui e agora.Estar despidos de antigos preconceitos e convenções,de exigências da cultura que nos formata,das cobranças de um e outro...livre,leve e soltos,isso cai bem!
Um espírito não nasce livre,recebe um nome e rótulos,protocolos e códigos a serem cumpridos,passa toda uma vida tentando ganhar aprovação e se adequar!Então,bendita idade ,sabedoria e clareza que o tornam enfim livre para expressar o que tem de mais genuíno e puro.
Por isso...um brinde à liberdade de perder para ser mais e melhor!


domingo, 1 de julho de 2018

Quando escrever é catarse!

Há momentos em que a alma parece explodir ou sufocar.Sem saídas definidas pelo caminho da inteligência,resistente quanto a seguir a intuição!
Quando vejo meu país ser entregue escandalosamente aos interesses externos,imperialistas,penso que minha análise,convicção e senso crítico são inócuos,nunca farão a diferença mesmo sabendo que como eu pensam milhões de pessoas.
Nossos meios de ação parecem todos comprometidos com regras manipuladas,estabelecidas a priori de forma a manter o status quo e mesmo o coro dos indignados vai sendo percebido como parte de uma orquestra regida de tal forma,com tal "maestria" que até mesmo a dissonância parece ter sido prevista,regulada e já computada nos riscos previstos.
Aliás,os riscos para a dominação voraz e predadora do sistema capitalista aparentemente vão se tornando cada vez menores,haja vista a desmoralização da esquerda no mundo pela mídia e por todos os mecanismos de ação que procuram fazer a devida mutação nos seres pensantes,para que pensem que pensam.
Espíritos livres! Quantos somos?
E afinal,do que somos efetivamente capazes?Qual é nosso potencial de resistência à avalanche predadora que já não esconde sua ferocidade nem insensibilidade?
Esse cenário faz uma inteligência oscilar entre a irracionalidade e ímpeto de resolução imediata;a ponderação e capacidade de articulação para resistir da forma mais sensata e paciente e também aciona o contato com esferas mais espirituais e imponderáveis do nosso ser,onde a intuição nos socorre com fé,esperança em tempos melhores de outra natureza. O misticismo, a crença intuitiva em luz fora da caverna,o mundo real além das sombra parecem um socorro e conforto.
Sendo ou não esse mundo relativo,de sombras,nossa única realidade,valendo ou não ao ser encarnado neste tempo e neste lugar,esperar em outros níveis sua redenção,ainda assim,a prece de São Francisco de Assis e  o Sermão do Monte,relidos nos tempos que vivemos,são um desafio às mentes inquietas como a minha.Trata-se de procurar o limite entre a atitude que não compactue com o mal  mas que não se iluda com  soluções que agridam os conceitos de bom e de justo consagrados pelos antigos filósofos.
No fundo no fundo,se trata de perguntar e encontrar a resposta para a pergunta: " Como age o amor,quando tem que dizer não?"

Paz e Bem!

sábado, 23 de junho de 2018

Releitura de Roberto Freire

"Viva Eu Viva Tu Viva o Rabo do Tatu"(quarta edição)



 Há quantos anos atrás li esse livro?talvez 30?
Porque ao tocar nele hoje,tive que abrir numa certa página e me encantar com o contéudo?
Alguém me ajude a entender...Apesar de parecer óbvia a razão do impacto, eu gostaria alguma de elucidação maior ao compartilhar.
 Vou transcrever:

 O Horror ao Estado

Para o anarquista,o Estado é,de todos os preconceitos que embrutecem os homens,o mais nefasto.Stirner vocifera contra aqueles que "por toda a eternidade"são possuídos da idéia do Estado."
" O que tem sustentado essa predisposição mental e tornado esta fascinação insensível,durante tanto tempo,é o fato de o governo se apresentar sempre aos espíritos como órgão natural da Justiça,o protetor dos fracos."Zombando dos "autoritários"invertebrados,que se inclinam diante do poder,como sacristãos diante dos santos sacramentos,maltratando "todos os partidos políticos" que voltam "incessantemente os seus olhares para a autoridade,como para o seu único polo".Proudhon anseia pelo dia em que a "renúncia à autoridade tenha substituído,no catecismo político,a fé na autoridade".
Quais são,para os anarquistas,os inconvenientes do Estado?
Escutemos Stirner:" Nós somos os dois,o Estado e eu,inimigos" "Todo Estado é uma tirania,seja a tirania de um só ou de vários." O Estado tem por único fim"limitar,ligar,obrigar o indivíduo a sujeitar-se à coisa geral(...)O Estado procura,pela censura,pela vigilância e pela polícia,impedir toda a atividade livre e tem esta repressão por seu dever,pois ela lhe é imposta(...)pelo instinto da conservação pessoal" " O Estado não me permite extrair dos meus pensamentos todo o seu valor e de os comunicar aos homens(...) como se eles fossem seus(...)Isto é,o Estado fecha-me a boca."
Proudhon repete,no mesmo sentido de Stirner:"O governo do homem pelo homem é a servidão." " Quem puser a mão sobre mim ,para me governar,é um usurpador e um tirano.Declaro-o meu inimigo"."Ser governado é ser guardado à vista,inspecionado,espionado,dirigido,legislado,regulamentado,parqueado,doutrinado,predicado,controlado,calculado,apreciado,censurado,comandado por seres que não tem o t´tilo,nem a ciência,nem a virtude(...)Ser governado é ser,a cada ooperação,a cada transação,a cada movimento,notado,registrado,recenseado,tarifado,selado,medido,cotado,avaliado,patenteado,licenciado,autorizado,rotulado,admoestado,impedido,reformado,reenviado,corrigido.É,sob o pretexto de utilidade pública e em nome do interesse geral,ser submetido à contribuição,utilizado,resgatado,explorado,monopolizado,extorquido,pressionado,mistificado,roubado;depois à menor resistência,à primeira palavra de queixa,reprimido,multado,vilipendiado,vexado,acossado,maltratado,espancado,desarmado,garroteado,aprisionado,fuzilado,metralhado,julgado,condenado,deportado,sacrificado,vendido,traído e,no máximo grau,jogado,ridicularizado,ultrajado,desonrado.Eis o governo,eis a justiça,eis a sua moral!(...)Oh,personalidade humana! Como foi possível deixares-te afundar,durante sessenta séculos,nesta abjeção?"


Anarquismo,ou "Caminante,no Hay Camino;se Hace camino al Andar"

"Longe de ser criador de energia,o governo(segundo Malatesta)desperdiça,paralisa e destrói,por seus métodos de ação,forças enormes"
""O funcionalismo(...) conduz ao comunismo de Estado,à absorção de toda a vida social e individual no mecanismo administrativo,à destruição de todo o  pensamento livre.Toda a gente procura se abrigar sob a asa do poder e viver sobre o comum".
Bacunine não é menos lúcido na sua visão angustiada de um Estado cada vez mais totalitário.A seu ver,as forças da contra-revolução mundial,"apoiadas em enormes orçamentos,em exércitos permanentes,numa burocracia formidável" dotadas de "todos os terríveis meios que lhes dá a centralização moderna" são uma realidade monstruosa,ameaçadora ,arrasadora"

Na democracia burguesa

O anarquista denuncia mais asperamente do que o faz o socialismo "autoritário" o logro da democracia burguesa.
Na opinião de Proudhon"a democracia é simplesmente uma arbítrio constitucional" por uma "arapuca" dos nossos pais,é que o povo foi proclamado soberano.Na realidade,ele é um rei sem domínio,o único dos reis que da grandeza e da generosidade reais apenas conserva o título.Reina,mas não governa.Delegando a sua soberania pelo exercício periódico do sufrágio universal,renova a cada três ou cinco anos,a sua abdicação.A dinastia foi afastada do trono,mas a realeza manteve-se organizada,A cédula do voto ,"nas mãos de um povo cuja instrução foi voluntariamente descuidada,é uma sábia intrujice,da qual só se beneficia a coligação dos barões da propriedade,do comércio e da indústria"


Finalizo essa transcrição com um "aleluia!!" para mim mesma! Fiz um link com nosso cenário atual e nada me parece mais apropriado do que esse texto hoje.
Como é bom reler mais madura textos da juventude!
Agora até posso acrescentar que a consideração sobre a coligação beneficiada inclui também e especialmente a mídia a serviço das elites financeiras assim como toda a cúpula que governa o mundo ocidental.
Entendi por fim o que queria dizer Raul Seixas na frase" a arapuca está armada e o alpiste é tentador".
Pobres de nós reduzidos a consumidores de tudo o que aumenta o capital.
 
 

sexta-feira, 19 de junho de 2015

O mundo melhor


         O mundo melhor

 

Meus pais viajaram muitíssimo enquanto a saúde de ambos permitiu.

Por todo o mundo!Viram,sentiram e conheceram a vida plenamente.

Ambos se foram muito idosos e nos deixaram um belo legado moral.

Sabiam do que estavam falando,no mínimo pela longevidade,não fosse a cultura e conhecimentos acumulados.

Desde sempre,nas viagens pelo interior de S.Paulo,vindo para Lins, ouvimos de minha mãe  uma frase dita de um jeito só dela(os erres saídos da ponta da língua).

A frase também parecia estar na ponta da língua em cada percurso feito de carro,olhando a imensidão da paisagem :”Tanta terra...tanta gente passando fome!Podiam dar um pedaço de terra para cada um...”

Dita por meu pai poderia ser ideologia.

Vinda dela a fonte era outra.Era um ser real,profundamente humano e amoroso que vivia naquela aparência frágil e simples.

Apesar de saber de onde vinha essa afirmação,de que coração e de que sentimentos,sempre parecia um pouco fantasioso da parte dela sonhar com isso.

Repenso agora com outra percepção.

Para explicar de onde veio,transcrevo um trecho de um prefácio escrito por Wilhem Reich para a terceira edição em língua inglesa de sua obra “Psicologia de Massas do Fascismo”em agosto de 1942.A primeira edição foi na década de 30.

 

”Uma longa e árdua prática terapêutica com o caráter humano levou-me à conclusão de que,na avaliação das reações humanas é necessário considerar três níveis diferentes da estrutura biopsiquica.Estes níveis da estrutura do caráter são ,conforme tive ocasião de expor na minha obra Analise do Carater,depósitos,com funcionamento próprio,do desenvolvimento social.No nível superficial da sua personalidade o homem médio é comedido,atencioso,compassivo,responsável,consciencioso.Não  haveria nenhuma tragédia  social do animal humano se este nível superficial da personalidade estivesse em contato direto com o cerne natural mais profundo.Mas infelizmente não é esse o caso:o nível superficial da cooperação social não se encontra em contacto com o cerne biológico profundo do individuo;ela se apoia num segundo nível de caráter intermediário,constituído por impulsos cruéis,sádicos,lascivos,sanguinários e invejosos.É  “inconsciente” ou “reprimido” de Freud,isto é,o conjunto daquilo que se designa na linguagem da economia sexual,por “impulsos secundários”.

            A biofisica orgonica tornou possível a compreensão do inconsciente freudiano,aquilo que é anti-social no homem,como resultado secundário da repressão de exigências biológicas primárias.E quando se penetrar ,através deste segundo nível destrutivo,até atingir os substratos biológicos do animal humano,descobrir-se-a,invariavelmente a terceira camada,a mais profunda,que designamos por cerne biológico.Nesse cerne,sob condições sociais favoráveis,o homem é um animal racional essencialmente honesto,trabalhador,cooperativo que ama e,tendo motivos,odeia.É absolutamente impossível conseguir-se uma flexibilidade da estrutura do carater do homem atual através da penetração desta camada mais profunda e tão promissora,sem primeiro eliminar-se a superfície social espurea e não genuína.Mas ao cair a máscara das boas maneira, o que primeiro surge não é a sociabilidade natural mas sim o nível de caráter perverso-sádico.

È esta infeliz estruturação que é responsável pelo fato de que qualquer impulso natural,social ou libidinoso,provenientes do cerne biológico,seja forçado a atravessar o nível das pulsões secundárias perversas,que o distorcem,sempre que pretenda passar à ação.Esta distorção transforma a natureza originalmente social dos impulsos naturais em perversidade e ,deste modo,leva á inibição de todas as manifestações autenticas de vida.

            Tentemos transportar esta estrutura humana para a esfera social e políticas”

 

            É fácil descobrir que os diferentes agrupamentos políticos e ideológicos da sociedade humana correspondem aos diferentes níveis da estrutura do caráter humano.....”

 

 

            Interrompo aqui primeiro para voltar ao inicio e dizer que assim como minha mãe desejou,milhares de pessoas anseiam e expressam o desejo intimo de ver o cerne biológico de Reich transformado numa sociedade solidária e justa.

            Depois,numa reflexão menos afetiva,repetir que esse desejo vem sendo manifestado no Brasil e no mundo com insistência nos dias que correm.

            A pergunta que todos se fazem com certeza é “ como”?

            Há respostas cientificas, ideológicas e religiosas.Não iremos debate-las.

            No caso,vale lembrar como queria Reich que “Amor,trabalho e conhecimento são as fontes da nossa vida.Deveriam também governá-la”

            Ao longo de suas considerações sobre trabalho vitalmente necessário,de auto gestão e de sua visão do que seja a política,temos a certeza de que é trabalho para ser lido,relido e muito debatido.

            Coincidentemente uma recente entrevista do professor e economista Paul Singer trouxe à baila a questão da economia solidária,que a seu ver é a forma de verdadeiramente solucionar as graves questões sociais e econômicas da atualidade .Sua crença me faz  pensar se começa a caber no universo do homem e da mulher do século XXI o ideal de cooperação de uma forma tão consistente como foi o de competição e competitividade até agora.

            Por quais caminhos conseguiremos chegar a esse mundo melhor tanto e tanto sonhado e de forma tão cândida e genuína nossas mães o desejaram,cabe a cada uma de nós refletir,tomar posição e atuar.

            Se através de terapias que nos ajudem a fazer emergir o cerne biológico de Reich,de auto critica e aprimoramento pessoal e cidadão ou se através de ações que promovam esse mundo melhor cada um de nós terá que descobrir.

           

            Só o que não cabe mais é a expressão “apolítico” tão cômoda a quem não gosta de pensar.Se não queremos ser massa temos que estudar e muito para sustentar posição e ser sujeitos de nossa história.

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Integra do discurso de Marina Zarvos R.de Oliveira

Um pouco sobre Miguel A. Zarvos

Nosso pai, (filho de pai grego e mãe Índia-borôro) carregou -como dupla herança genética - o amor pela Natureza e pela Política.
Parecia ver, na sua cidade, a pequena aldeia indígena,onde todos buscavam o bem comum.
Parecia ver ,na cidade,a Polis grega ,nascida das mentes de seus ancestrais e lugar do exercício da Democracia.
Com olhar ,encantado pela vida do grande filósofo Sócrates e inspirado pelas leituras de Platão e Aristóteles ,notadamente "A Ética e a Política", Miguel desenvolveu o dom da Retórica.
Utilizou-a através da luta por ideais comuns e em benéfico da cidade que o acolheu .
Foi contemporâneo de Gilberto Siqueira Lopes,Moisés Antônio Tobias,Bonifácio Urel, Fauze Kfouri, Joaquim Rocha, Alcides Ramos Antunes e tantos outros representantes do povo linense.
Dentre tantas lutas,citamos as campanhas - Contra a Bomba Atômica, ,Pela Paz-e a do -Petróleo é Nosso -.Lutas que resultaram em discussões acirradas /,muitas vezes,perseguições políticas ferrenhas.
Não se cansava de contar, com riqueza de detalhes,os embates políticos e os inúmeros encontros com grandes nomes do cenário nacional : Jânio Quadros,Adhemar de Barros ,Laudo Natel, Ivete Vargas e o notável Ulysses Guimarães.

Com ele aprendemos -nós,seus filhos e netos -a força da Honra e o valor da Honestidade.Dele ouvimos-desde muito jovens-as palavras de muitos filósofos.Dele ouvimos as palavras de Platão (ainda nó séc.IV AC) a um visitante ateniense,que compartilhamos com os senhores:

" Uma sociedade em que nem a riqueza nem a pobreza existem produz homens de excelente caráter,já que nela não há lugar para violência ou maldade,nem para rivalidade ou inveja".

Finalizando peço licença para lançar mão de uma palavra em grego: Areté. Areté,não tem uma tradução exata,mas pode ser entendida como "Virtude" ou Excelência".Na prática,Areté é aquilo pelo qual se realiza máxima e plenamente ,os potênciais de cada pessoa.

No caso de Miguel Zarvos,com orgulho dizemos que,na vida privada,nos ensinou a "Areté". E ousamos dizer que ,na vida pública,foi dotado da "Arete do político"e, no seu âmbito de atuação ,a realizou plenamente.

Reiteramos nossos sinceros agradecimentos pela homenagem.

Obrigada


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quarta-feira, 3 de junho de 2015

Meu pai


                               Meu pai

 

 

Enquanto ele viveu era o meu pai,mas depois que se foi tornou-se algo mais.

Com ele presente(uma interação difícil diante da autoridade que não se podia desafiar)minhas defesas se aguçavam.Eu precisava me afirmar no mundo.

Enfrentava,questionava no silencio dos mais fracos,sonhava com libertação e temia.

Amava e temia.Muito amava e muito temia.

A segurança e toda a proteção que necessitava,na infância pareciam vir dele.

Na juventude,todas as regras impostas tolhiam e castravam.

A busca pelo novo, própria dos jovens,o desejo de experiência de vida era sempre obstruída pela voz da experiência dele.E do poder.

A regra era obedecer.

Na infância o deleite das histórias,longas histórias,adoradas histórias que contava;na juventude e maturidade o prazer de ouvir suas memórias e conceitos políticos,filosóficos,morais e até religiosos.
Agora podíamos compartilhar experiencias e muitas idéias.

Ainda assim,vez por outra o gesto autoritário que não podia ser enfrentado senão timidamente e muito respeitosamente.

Agora tornou-se referencia que posso seguir.Livremente, na medida que me aprouver e quase sempre perfeito sinal de correção no caminho.

Posso dar razão a quase tudo sem me sentir ameaçada por sua força.

Ela agora está interiorizada e me pertence.

Isso tornou meu pai aquilo que todos os antepassados eram na Grécia Antiga...os lares!Deuses protetores de seu clã e guardiões de todos os esforços para nos tornarmos também bons sinalizadores um dia.

Os valores transmitidos ganham nova dimensão,como que depurados de toda interferência da personalidade de quem quer que seja.Ele se tornou também meu avô,meu bisavô,meu tataravô,a mãe dele minha avó,os índios dos quais ela nasceu como mescla muito rara e preciosa.Tornou-se a bisavó espanhola e a tataravó inglesa!

Há poucos dias foi homenageado em uma comovente inauguração na Camara Municipal.Deu nome a um salão de eventos no espaço em que mais orgulho sentiu como cidadão.Vereador,presidente da Câmara,político não remunerado como eram todos em seu tempo e batalhador valente pela causa que defendia.

Faço minhas as palavras bem lembradas de minha irmã Marina em seu discurso no dia do descerramento da placa com   o nome dele:

 

“ Nosso pai,filho de pai grego e índia bororó,carregou como dupla herança genética , o amor pela natureza e pela política.Parecia ver,na sua cidade,a pequena aldeia indígena onde todos buscavam o bem comum.Parecia ver,na cidade,a polis grega,nascida das mentes de seus ancestrais e lugar do exercício da democracia.

....

“ Com ele aprendemos,nós,seus filhos e netos,a força da honra e da honestidade.Dele ouvimos,desde muito jovens as palavras de muitos filósofos.Dele ouvimos as palavras de Platão a uma visitante ateniense  dizendo: Uma sociedade em que nem a riqueza nem a pobreza existem,produz homens de excelente caráter,já que nela não há lugar para violência ou maldade,nem para rivalidade ou inveja”

 

 

Usei esses trechos de seu discurso para tornar mais claro meu propósito nesta reverencia a ele.

Entendi que também meu pai envelheceu para consolidar um caráter,assim como propõe o psicanalista James Hillman em seu livro” A força do caráter e a poética de uma vida longa”.

Nosso pai se foi aos 91 anos e hoje não é mais um forte personalidade ou um temperamento explosivo e autoritário.É um valor inestimável,um caráter que transmitiu seus valores e um antepassado que jamais será esquecido enquanto um descendente seu viver.

Os valores aprendidos em casa dão sentido até mesmo à obediência tão rejeitada.Era o preço que pagamos para ter algo que hoje faz falta em muitos lares:a hierarquia.

Sobre isso falamos outro dia.

 

Um brinde ao meu pai Miguel Antonio Zarvos.